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14/04/2013


O desafio dos 50 livros - 1a parte

Brincadeirinha do Facebook que optei por deixar registrada aqui, como forma de demonstrar meu amor pela leitura.

 

01. Um livro que marcou a sua infância



Todos os do Monteiro Lobato, dos quais o primeirão, presente da querida tia Clissia Cabral, foi esse aqui:

 

 

02. Um livro que marcou a sua adolescência
Além da história verdadeira e impactante do rapaz que se torna tetraplégico no auge da juventude, depois de na infância ter visto o pai ser "desaparecido" pelo regime repressor (crime que só agora, 40 anos depois, vem a ser esclarecido), Feliz Ano Velho foi inesquecível na minha juventude pela linguagem revolucionária. Era a primeira vez que lia um livro que falava a língua dos jovens, um monte de gírias e coloquialismos que nem nós mesmos, adolescentes burgueses e pacatos, conhecíamos, e descrições literais e sinceras da verdadeira vida de sexo, drogas e rock'n'roll de um jovem da geração dele. Tornei-me fã de Marcelo Rubens Paiva para sempre.

 

 

 

 03. Um livro que você considera um clássico



Um clássico é um livro que sobrevive à sua época, um livro que perdura por gerações, e isso só acontece quando cada nova releitura trouxer algo novo, quando o livro revelar uma nova face cada vez que for relido. Quer clássico maior do que um romance sobre adultério que até hoje provoca controvérsias entre os que acham que o adultério realmente ocorreu e outros que acreditam não passar de paranóia do narrador?

 

 

Cenas da belíssima minissérie de Luiz Fernando Carvalho, Capitu, baseada no clássico de Machado de Assis, ao som da música Elephant Gun, da banda Beirut:

 

 

04. O melhor livro de seu autor favorito



Uma velha atriz decadente, uma psicanalista solitária e um gato que rememora suas encarnações como ser humano. Esses são os três protagonistas de As Horas Nuas, que considero a obra-prima daquela que é senão meu autor favorito, um dos top five: Lygia Fagundes Telles.

 

 

05. Um livro ruim de um autor bom



João Ubaldo Ribeiro é um autor com quem tenho uma relação de amor e ódio. A Casa dos Budas Ditosos foi um dos livros mais ousados, engraçados e delirantes que já li na vida. Por outro lado, Viva o Povo Brasileiro foi um dos mais chatos e pretensiosos romances brasileiros que li. Que o autor escreve bem, não se discute: há inclusive momentos brilhantes no livro, como quando parodia A Ilíada de Homero usando os orixás do candomblé no lugar dos deuses gregos no campo de luta. Mas o livro como um todo me soou extremamente repetitivo, demagógico e estereotipado.

 

 

06. Um livro ruim que você tenha gostado



Se fosse tentar ler um livro do Sidney Sheldon com o repertório de vida e de cultura que tenho hoje, provavelmente não passaria da quinta página, tantos são os clichês usados nesse tipo de literatura (ou sub-literatura, como queiram). Mas como li O Outro Lado da Meia Noite na adolescência, o que ficou na memória foi um romance eletrizante, que prendeu a atenção do começo ao fim da história!

 

 

07. Um livro com uma ótima adaptação para o cinema


Na grande maioria das vezes me decepciono com adaptações cinematográficas de livros que já li, por um desses dois motivos: a) o filme não passa de um resumão do livro, sem trai-lo mas também sem acrescentar nada de novo, e nesse caso não vejo razão para fazê-lo; b) na tentativa de se diferenciar da obra literária, o filme cai no extremo oposto e acaba fugindo completamente à essência da obra retratada. Raros são os filmes que mantêm a essência do livro em que se baseiam e ao mesmo tempo lhe acrescentam algo, jogando uma nova luz sobre a história, ou dando-lhe um foco diferente. As Horas, o filme de Stephen Daldry baseado na obra de um de meus autores favoritos, Michael Cunningham, o qual por sua vez homenageia o clássico Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, é um desses casos raros.

 

 

 

08. Um livro que fala de situações reais



A Queda para o Alto é uma autobiografia de Anderson Herzer, nascido Sandra Mara, um transexual desajustado numa época em que o termo "transexual" nem existia ainda. Publicado postumamente, é uma história triste de alguém que sofreu pra caramba, perdeu os pais ainda criança, cresceu na marginalidade, conheceu o inferno na Febem e mesmo com a mão amiga do hoje senador Eduardo Suplicy, que conseguiu enxergar o ser humano sensível atrás daquela couraça de adolescente infrator, não conseguiu superar seus demônios e acabou se suicidando. O livro foi adaptado em 1987 por Sérgio Toledo com o nome Vera, e estrelando uma jovem Ana Beatriz Nogueira numa atuação que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim, e Raul Cortez como o deputado baseado em Eduardo Suplicy.

 

 

09. Um livro que você não conseguiu ler inteiro
Raramente desisto de um livro. Posso até deixá-lo hibernando, por algum tempo, às vezes alguns anos, mas sempre com a intenção de retomar a leitura. No caso de Ulisses, de James Joyce, desisti foi da tradução de Antonio Hoauiss, a qual nem tenho mais em minha estante. Decidi que, se um dia for enfrentar o calhamaço, que seja pelo menos na língua em que foi escrito.

 

 

 

10. Um livro que te faça rir



Os livros do Luis Fernando Veríssimo, principalmente os mais antigos. O humor dele se refinou e hoje me arranca sorrisos cúmplices. Mas O Analista de Bagé me arrancava gargalhadas histéricas!

 


 

Leia aqui a primeira -- e hilariante -- crônica do Analista de Bagé.

 

Escrito por will robinson às 03h18
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04/03/2013


Um raio de esperança?

Os filmes:

 

OS MISERÁVEIS (Les Misérables - Reino Unido, 2012)

Roteiro: William Nicholson, Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg, Herbert Kretzmer; baseado no musical de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil; por sua vez baseado no romance de Victor Hugo

Canções: música de Claude-Michel Schönberg, letras em francês de Alain Boublil e Jean-Marc Natel, letras em inglês de Herbert Kretzmer e James Fenton

Produzido por Tim Bevan, Eric Fellner, Debra Hayward, Cameron Macintosh

Direção: Tom Hooper

 

 

A VIAGEM (Cloud Atlas - Alemanha, 2012)

Produzido por Grant Hill, Stefan Arndt, Lana Wachowski, Tom Tykwer, Andy Wachowski

Roteiro e direção: Lana Wachowski, Tom Tykwer, Andy Wachowski; baseado no romance de David Mitchell

 

 

O LADO BOM DA VIDA (Silver Linings Playbook - EUA, 2012)

Produzido por Bruce Cohen, Donna Gigliotti, Jonathan Gordon

Roteiro e direção de David O. Russell, baseado no romance de Matthew Quick

 

 

"This is the land I fought for liberty, now when we fight, we fight for bread... Here is the thing about equality, everyone's equal when they're dead."

(Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg, Herbert Kretzmer - Look Down)

 

 

Logo no começo de O lado bom da vida, o personagem Pat (Bradley Cooper), um professor recém-saído de uma instituição para se tratar de seu transtorno bipolar, resolve ler alguns dos clássicos da literatura americana que sua ex-mulher Nikki (Brea Bee) usa em suas aulas, e logo descobre que todos têm final trágico, terminando quase sempre com a morte dos protagonistas. Isso vai totalmente contra a filosofia que desenvolveu para lidar com sua condição: a de sempre procurar um raio de esperança (ou silver lining, como no título original) mesmo nas situações mais adversas. Seu interesse romântico no filme, a não menos problemática Tiffany (Jennifer Lawrence, no papel que lhe rendeu o Oscar) argumenta, numa carta que ela escreveu mas atribui a Nikki, que esses livros servem para ensinar aos alunos que a vida é mesmo difícil e assim prepará-los melhor para o que enfrentarão pela frente.

 

 

 

O romance de Victor Hugo no qual o musical Les Misérables é baseado não é exceção à regra: a vida é mesmo dura e os seres humanos não aprendem com os próprios erros. "Derrubamos um rei e agora temos outro rei", canta o garoto de rua Gavroche (o adorável Daniel Huttlestone), mostrando um discernimento e um senso crítico bastante incomum para alguém de sua idade, para emendar em seguida, na tradução da frase que uso aqui como epígrafe: "Essa é a terra que lutou por liberdade, agora lutamos pelo pão. Eis a verdade sobre a igualdade: só somos iguais quando morremos."

 

 

 

No filme A Viagem, quando o garoto e futuro escritor Javier Gomez (Brody Nicholas Lee) pergunta à jornalista Luisa Rey (Halle Berry) por que ela lê as cartas escritas no passado pelo pianista Robert Frobischer (Ben Wishaw) ao seu namorado Rufus Sixmith (James D'Arcy), nas quais o pianista por sua vez descreve seu profundo interesse pelo diário escrito num passado ainda mais longínquo pelo advogado Adam Ewing (Jim Sturgess) sobre sua amizade com o escravo fugitivo Autua (David Gyasi), a jornalista responde simplesmente: "Para tentar entender por que nós continuamos a cometer sempre os mesmos erros."

 

 

Essa frase resume pra mim o que é o filme A Viagem, aparentemente complexo e difícil em sua estrutura multi-narrativa que entrelaça seis histórias passadas em locais e épocas diferentes do passado, presente e futuro, mas que na verdade se revela muito simples em sua essência: a ideia de que todos nós, enquanto seres humanos, acabamos por cometer sempre os mesmos erros, não importando se vivemos em ambiente de extrema tecnologia ou numa idade da pedra pós-apocalíptica. A mesma "ordem natural" evocada pelos escravagistas do século XIX é retomada na Seul ultra-desenvolvida do século XXII, onde clones são produzidos em série com o único objetivo de servir aos que lhes são superiores. A exploração do ser humano pelo seu próprio semelhante é posteriormente reduzida a seu aspecto mais elementar: o canibalismo.

 

 

 

Curiosamente, embora desses três filmes citados o único que se passa na época atual (com exceção de uma das histórias de A Viagem) seja O lado bom da vida, sendo também o único dos três que dispensa efeitos especiais mirabolantes, cenários grandiosos e canções épicas para contar sua história, é paradoxalmente o mais fantasioso dos três. Não só na superficialidade com que retrata os distúrbios psiquiátricos de seus protagonistas: qualquer um que já tenha convivido com pessoas bipolares, depressivas, compulsivas ou obsessivas, ou já tenha sofrido na pele um desses problemas, sabe que os personagens de Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro e Chris Tucker são, na melhor das hipóteses, pálidas e romantizadas representações de pessoas que sofrem daqueles distúrbios. Em alguns momentos, o filme parece mostrar que basta uma conversa sincera e alguns tapinhas nas costas para que uma pessoa surtada decida tomar direitinho seus remédios. Mas como eu dizia, não é só essa a fantasia do filme: é principalmente sua insistência em justificar o título original com um bom e legítimo raio de esperança em seu final, tão feliz quanto inverossímil.

 

Enquanto isso, o trágico e operístico musical Les Misérables chega a doer na alma de tão real é o mundo de seus personagens. Ou você vive em um mundo onde Valjeans não vão para a prisão por roubar ninharias para sobreviver e saem da cadeia muito piores do que entraram, enquanto os ladrões que roubam milhões se mantêm alegremente no poder? Onde Javerts inflexíveis e incapazes de qualquer compaixão não seguem perseguindo e condenando aqueles que não respeitam seus rígidos princípios morais e legais? Onde jovens Fantines de ambos os sexos e todos os gêneros não acabam optando pela prostituição como última opção diante da rejeição da sociedade (como acontece todos os dias debaixo dos nossos narizes com a grande maioria das travestis e transexuais)? Onde senhores e senhoras Thénardier não sobrevivem explorando e enganando pessoas em situação de igual miséria, seguindo fielmente a filosofia de que "dog eats dog"? Onde jovens estudantes idealistas não continuam sacrificando suas próprias vidas (na Síria, no Oriente Médio, na primavera árabe) por uma causa que acaba se revelando inatingível, visto que a cada ditadura que é derrubada surge uma ainda pior para ocupar o lugar? E o único raio de esperança oferecido pelo filme chega a ser uma reunião dos fantasmas daqueles que morreram em vão entoando o hino "There is a life about to start when tomorrow comes!", ou seja, há uma vida para começar quando vier amanhã. O problema é que amanhã está condenado a ser sempre amanhã e nunca hoje.

 

 

 

Em A Viagem, o tal raio de esperança aparece na forma de um planeta distante onde a Terra é apenas uma estrela no céu. Mas para que esse texto não termine de maneira demasiado pessimista, e sim com um raio de esperança, termino com a citação de uma frase do ator Tom Hanks sobre o filme em que interpreta múltiplos personagens, resumindo a filosofia da obra: "Trata-se de um filme sobre a escolha entre fazer o mal e fazer o bem, e como essa escolha é o que determina não só nossas vidas, mas também as vidas de todos aqueles que nos cercam." E felizmente, ontem, hoje e amanhã sempre haverá aqueles que optam pelo bem.

 

O elenco de Les Misérables na apresentação do Oscar

 

Escrito por will robinson às 23h29
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21/01/2013


O preço da sobrevivência

Filme: AS AVENTURAS DE PI

Título original: Life of Pi (EUA, 2012)

Roteiro: David Magee, baseado no livro de Yann Martel

Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark

Direção: Ang Lee

 

"Tu es responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé."

(Antoine de Saint-Exupéry - Le Petit Prince)

 

"I suppose in the end, the whole of life becomes an act of letting go, but what always hurts the most is not taking a moment to say goodbye."

(David Magee, Yann Martel - Life of Pi)

 

"Our lives are not our own, we are bound to others, past and present. And by each crime and every kindness, we birth our future."

(Andy Wachowski, Tom TykwerLana Wachowski, David Mitchell - Cloud Atlas)

 

 

Não, dessa vez não vou usar esse espaço para analisar o belíssimo filme de Ang Lee, elogiar sua caprichadíssima produção em 3-D, sua exuberante fotografia, suas imagens de tirar o fôlego. Tampouco vou entrar nas complexas discussões filosóficas que o filme propõe -- quem quiser se aprofundar nelas já tem inúmeros sites à disposição.

 

Vou apenas falar sobre a cena do filme que mais me marcou: quando depois de 227 dias à deriva, o barco em que o garoto Pi (Suraj Sharma) e o tigre Richard Parker sobreviveram a um naufrágio chega à costa do México. Enquanto o garoto se joga na areia e mal tem forças pra se mover, o tigre, ansioso por liberdade, se encaminha em direção à floresta. Pi ainda espera que o animal olhe pra trás e solte um rugido, como um sinal de adeus, mas nada disso acontece: o tigre apenas se embrenha na selva sem olhar pra trás. E Pi, refletindo sobre a cena quando adulto (interpretado então por Irrfan Khan), diz a frase que reproduzi acima no original: Embora toda a vida seja um exercício de se despedir, o que mais machuca é quando não se diz adeus.

 

Fiquei pensando em por que aquele animal que tem nome e sobrenome não foi capaz desse derradeiro gesto de carinho pelo garoto que o acompanhou em sua trajetória de sobrevivência durante tanto tempo e atende por um símbolo matemático. (Que fique claro que estou falando do ponto de vista metafórico que permeia todo o filme, não me venham com lições de biologia, por favor.) Talvez porque o tigre, focado basicamente em seu instinto de sobrevivência, não chega a sentir qualquer empatia ou necessidade de confortar o outro. Afinal, é mais fácil sobreviver na selva quando temos de cuidar exclusivamente de nós mesmos. E assim deixamos às vezes de oferecer àquele que está do lado um simples gesto de carinho, de amizade, de simpatia, de conforto, quando o outro está fragilizado. Não necessariamente por maldade ou egoísmo, mas simplesmente por estarmos tão concentrados em nossa própria sobrevivência que nem chegamos a perceber que o outro está fragilizado. E quando percebemos, ainda pensamos algo do tipo "Problema dele/a, não posso fazer nada mesmo, cada um tem que conviver com seus problemas, a vida é difícil para todos." Quantas vezes você já não ouviu, ou pensou, ou mesmo disse, variações dessa frase?

 

E assim vamos seguindo a vida. Sobrevivendo. Deve ser algo comum a quem tem nome e sobrenome.

 

Pi's LullabyBombay Jayashri & Mychael Danna

 

Escrito por will robinson às 02h06
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06/01/2013


Mudaria o Natal ou mudei eu?

6 de janeiro de 2013, primeiro ano depois do fim do mundo. Hoje se celebra segundo a tradição cristã o dia de reis, dia em que segundo a tradição os reis magos presentearam o recém-nascido Messias com ouro, incenso e mirra e em que alguns países é realizada a troca de presentes que entre nós é feita sempre no Natal. E isso não teria nenhuma importância a não ser o fato de eu estar usando esse pretexto para fazer uma reflexão um pouco atrasada sobre o significado do Natal -- já que hoje seria o dia de desmontar os enfeites natalinos.

 

 

"Mudaria o Natal ou mudei eu?" questionava-se Machado de Assis em seu famoso Soneto de Natal. Claro que o Natal para uma criança não tem comparação com a mesma data para um adulto. Independente das convicções religiosas de sua família, Natal para uma criança é um tempo mágico, tempo de acreditar que um velhinho de barbas brancas morador do Pólo Norte percorre o mundo todo em um trenó puxado por renas voadoras a distribuir presentes pelas chaminés. Quando essa criança se torna adulto e tem filhos, tenta transmitir a eles a mesma magia que encontrava nessa data quando criança -- e aí se justificam plenamente as árvores que imitam pinheiros cobertos de neve, bonecos de renas e duendes, Papais Noéis por todos os lados. Mas qual o sentido disso para alguém que não tem filhos?

 

 

Não vou questionar motivações religiosas aqui. Fé é algo individual que deve ser respeitado mesmo por quem não a tem, e não gosto nem um pouco da atitude de alguns ateus militantes que ridicularizam e debocham da fé alheia, da mesma forma que condeno aqueles que tentam impor sua fé a toda a humanidade. Mas o fato é que, embora tenha tido fases de acreditar em outras coisas, hoje sou um ser profundamente cético. E quando relatava a uma psicoterapeuta, há muitos anos, que começava a questionar minhas crenças no sobrenatural, a frase que ela usou foi: "Quando a gente cresce deixa de acreditar em Papai Noel, não é verdade?" Na hora fiquei um pouco ofendido por achar que ela estava equiparando crenças que se supõem sérias a uma lenda infantil, mas depois entendi que pelo menos no meu caso específico, ela estava coberta de razão. Sem nunca ter sido uma pessoa religiosa, eu apenas usava aquelas crenças como uma forma de escapar da realidade.

 

E o dilema se impõe: sem Papai Noel e sem Jesus Cristo, o que sobra para dar sentido ao Natal? A corrida frenética ao comércio? A obrigação de dar presentes a todo o mundo? A necessidade de se mostrar feliz e solidário só nessa época do ano? A hipocrisia de se desejar felicidades a quem nem se olha na cara durante o resto do ano? A tendência a se empanturrar de comida e bebida para afetar uma irreal felicidade?

 

 

Nesse ano o Natal foi bem diferente para mim. Com a casa de pernas pro ar devido a uma reforma inacabada, não houve árvore de Natal dessa vez. Sem condições de receber visitas, meu irmão fez o convite: por que não passar o natal em Juiz de Fora, com a família da minha cunhada? Convite aceito, fomos para lá, não sem antes sermos alertados: Nada de presentes, eles não têm essa tradição, assim como também dispensam árvores de Natal e penduricalhos mil. E assim fomos poupados da correria ao comércio, e nossas andanças pelo comércio de Juiz de Fora se resumiram a comprar doces típicos de Minas para trazer aos parentes e amigos -- e a nós mesmos também, claro, que ninguém é de ferro.

 

Não que não seja uma família católica, pelo menos de nome -- assim como a minha também era, só de nome. A única pessoa ali que era realmente religiosa era o sogro de meu irmão, que se prontificou a ir à missa no dia de Natal sozinho, e apenas teve a voluntária companhia de meu irmão, que é tão religioso quanto eu, para poupá-lo de percorrer sozinho as íngremes ladeiras do bairro onde mora. Mas de resto foi curtir sua fé sem sermões, sem recriminar os demais membros da família por não terem a mesma disposição, num total respeito pela liberdade individual. E o que vi nessa família foi simplesmente o prazer de estarem juntos, de trabalhar democraticamente -- quem gostava de cozinhar cozinhava, os demais se revezavam entre arrumar a mesa, lavar os pratos, buscar as coisas no supermercado. O prazer de se sentar à mesa para comer e jogar conversa fora, sem frescuras, sem troca de presentes, sem cânticos de Natal, sem tv ligada no especial da Xuxa, sem preces impostas -- apenas o prazer de estarem juntos. E ali descobri o verdadeiro espírito de Natal.

 

Escrito por will robinson às 07h14
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22/10/2012


E estamos todos aí

Filme: E SE VIVÊSSEMOS TODOS JUNTOS?

Título original: Et si on vivait tous ensemble? (França, 2011)

Produção: Christophe Bruncher, Philippe Gompel, Aurélia Grossmann

Roteiro e direção: Stéphane Robelin

 

 

 

"Antes de mim vieram os velhos

Os jovens vieram depois de mim

E estamos todos aqui

No meio do caminho dessa vida

Vinda antes de nós

E estamos todos a sós

No meio do caminho dessa vida..."

(Adriana Calcanhotto, Velhos e Jovens)

 

O cinema francês não tem medo de lidar com questões tabu. E o melhor é que o faz sem pudores, mas também com extrema leveza. Daí o sucesso de um filme como Intocáveis, ainda em cartaz no cinema, que nos faz rir com a história real da amizade entre um milionário tetraplégico e um imigrante africano, ex-presidiário.

 

 

 

Assim como Intocáveis, também este E se vivêssemos todos juntos? nos faz rir de situações que na vida real talvez nos fizessem chorar. Isso porque trata de um tema que a todos nós afeta ou afetará, em algum momento da vida: a velhice e todas as suas consequências. Todos nós ficaremos velhos, um dia (isso, claro, se não partirmos dessa vida antes disso). Mas mais do que isso, todos nós convivemos com nossos avós e mais tarde com nossos pais idosos, aprendemos às vezes de forma bastante dura a lidar com as limitações que a idade traz, e aos trancos e barrancos vamos vendo quem um dia representou a segurança e a estabilidade em nossas vidas passando a depender de nós, filhos, que sempre fomos os carentes de proteção, e de repente nos vemos na posição de cuidadores e responsáveis por nossos próprios pais sem nunca termos de fato nos preparado para isso.

 

Curiosamente os filhos são os grandes ausentes do filme francês, e quando aparecem é para representar a repressão, aqueles que a título de proteger os pais acabam por restringi-los a uma vida de regras e limitações, sem perceber que o que eles mais querem é aproveitar ao máximo o pouco de vida que ainda lhes resta. Como diz um dos personagens ao filho: "Seu pai vai morrer e nós dois sabemos disso. Mas enquanto isso não acontece, me deixe curtir a vida!"

 

Vamos a um breve resumo da história. Os protagonistas são cinco amigos, todos passados dos setenta anos: os casais formados por Jeanne (a inigualável Jane Fonda, ainda uma mulher belíssima aos 74 anos) e Albert (Pierre Richard), e Jean (Guy Bedos) e Annie (Geraldine Chaplin), e ainda o solteirão convicto Claude (Claude Rich). Todos têm uma vida independente e financeiramente estável, mas os problemas de saúde enfrentados por cada um deles, alguns mais sérios que outros, acabam fazendo com que os respectivos filhos passem a pensar na opção de interná-los em asilos. Para escapar a essa sombria alternativa, resolvem então morar todos juntos, quando então passam a enfrentar os problemas criados pela convivência entre pessoas diferentes e cheias de manias, mas entre os quais reina um amor tão grande que saberá passar por cima até de eventuais descobertas de mentiras e infidelidades mantidas em segredo há décadas. A eles vem se juntar um jovem estudante que trabalha em uma tese sobre a velhice, o alemão Dirk (Daniel Brühl), o qual de certa forma estabelece uma ponte entre o espectador e aquele grupo de amigos, representando o estranhamento necessário para que penetremos naquele universo tão particular de pessoas unidas pelo afeto há tanto tempo que não precisam de muitas palavras para se entenderem.

 

A doença, a dor, a saudade dos filhos e netos, o medo da senilidade e do esquecimento, a proximidade da morte e mesmo o sexo na terceira idade são alguns dos vários temas tratados por esse filme com muita leveza e muito humor, sem nunca resvalar para a pieguice e o sentimentalismo, e o que é mais importante -- sem paternalizar seus personagens, sem tratá-los como um bando de velhinhos excêntricos, e sim como seres humanos complexos em suas contradições, angústias e sonhos, tratados com o mesmo respeito com que deveríamos tratar nossos idosos. E com o mesmo respeito com que esperamos ser tratados quando chegar a nossa vez de sermos considerados "terceira idade".

 

 

 

"E estamos todos no meio

Quem chegou e quem faz tempo que veio

Ninguém no início ou no fim

Antes de mim

Vieram os velhos

Os jovens vieram depois de mim

E estamos todos aí"

(Adriana Calcanhotto)

 

 

Escrito por will robinson às 04h17
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04/03/2012


Adapte-se ou morra! (Parte 1)

Os filmes:

 

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, EUA, 2011)

Roteiro: Steven Zaillian e Aaron Sorkin, história de Stan Chervin baseada no livro Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game de Michael Lewis

Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt

Direção: Bennett Miller

 

 

A DAMA DE FERRO (The Iron Lady, Reino Unido, 2011)

Roteiro: Abi Morgan

Produção: Damian Jones

Direção: Phyllida Lloyd

 

 

OS DESCENDENTES (The Descendants, EUA, 2011)

Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash, baseado no livro de Kaui Hart Hemmings

Produção: Jim Burke, Alexander Payne, Jim Taylor

Direção: Alexander Payne

 

 

O ARTISTA (The Artist, França, 2011)

Produção: Thomas Langmann, Emmanuel Montamat

Roteiro e direção: Michel Hazanavicius

 

 

A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo, EUA, 2011)

Roteiro: John Logan, baseado no livro A Invenção de Hugo Cabret (The Invention of Hugo Cabret), de Brian Selznick

Produção: Johnny Depp, Tim Headington, Graham King, Martin Scorsese

Direção: Martin Scorsese

 

 

"Adapt or die!"

Brad Pitt como Billy Beane em O homem que mudou o jogo

 

Billy Beane, Margaret Thatcher e Georges Méliès são pessoas que realmente existem ou existiram. Matt King, George Valentin e Hugo Cabret são personagens fictícios. Mas todos eles têm algo em comum: todos precisam adaptar-se a uma nova realidade, muito diferente daquela a que estavam acostumados.

 

 

 

Brad Pitt e Kerris Dorsey em O homem que mudou o jogo

 

 

Billy Beane (Brad Pitt) foi o primeiro "general manager" (algo como o presidente de um time) de um time americano de beisebol a usar uma moderna forma de analisar os jogadores de acordo com determinadas estatísticas e escalá-los para os jogos por padrões matemáticos. Na verdade o filme O homem que mudou o jogo conta como Beane foi obrigado a recorrer a um jovem pioneiro nesse tipo de estatística (interpretado por Jonah Hill) devido à incapacidade financeira de seu time, os Oakland Athletics, de arcar com os custos dos jogadores mais talentosos. A estratégia faz com que seu time ganhe vários jogos em sequência, mas só depois de enfrentar ferrenha oposição tanto do treinador (Philip Seymour Hoffman) quanto de todos os seus auxiliares. É a eles que ele dirige a frase citada acima, "Adapte-se ou morra", querendo dizer com isso que aqueles que permanecessem presos a um método a seu ver ultrapassado de jogar seriam logo superados. E é o que acontece: logo todos os outros times passam a usar o mesmo método introduzido por ele, pomposamente chamado "sabermetrics", e assim ironicamente, seu próprio time volta a ocupar a lanterninha dos campeonatos. (Observação: tentei contar essa história da melhor forma que consegui, mas se mesmo assim você leitor não entendeu nada, isso se deve à profunda repugnância que tenho tanto por esportes quanto por números, e também à minha absoluta ignorância em relação a beisebol, o que sinceramente fez com que assistir esse filme fosse de certa forma um martírio.)

 

 

 

Jim Broadbent e Meryl Streep como Sr. e Sra. Thatcher em A dama de ferro

 

 

 

O drama de Margaret Thatcher (interpretada em A Dama de Ferro por Alexandra Roach quando jovem e por uma absolutamente magistral Meryl Streep tanto na idade madura quanto na velhice) é bem diferente. Tendo sido primeira-ministra do Reino Unido por onze anos (1979 a 1990), foi a mulher mais poderosa de seu tempo e uma das pessoas que marcaram o século XX, a ponto de seu sobrenome virar verbete no dicionário, sendo thatcherismo a definição de sua forma particular e autoritária de implementar o liberalismo econômico em seu país. Mas quando o filme começa encontramos a outrora Dama de Ferro com a idade avançada, frágil e alquebrada, lutando contra o princípio da demência e tentando juntar os caquinhos de sua memória para ver se fazem algum sentido. Dialogando com a alucinação do marido já falecido (Jim Broadbent), Thatcher tenta a todo custo esconder dos que a cercam que seu estado mental está em franco declínio, e isso relativiza bastante, naturalmente, a natureza das lembranças que aparecem em flashback. Os maniqueístas que enxergam a realidade em preto e branco tentaram denegrir o filme de Phyllida Law, desqualificando-o como superficial e benevolente com a polêmica personalidade que retrata. Mas o filme tanto não é benevolente, mostrando de forma bastante clara como o autoritarismo e a arrogância da ex-chefe de governo britânica levou-a a ser defenestrada por seus próprios correligionários, quanto não é superficial, pois se prefere mostrar a personalidade política como um ser humano dotado de virtudes e fraquezas, ao invés de demonizá-la como gostariam os detratores, aprofunda e humaniza a personagem, ao ponto de nos apiedarmos por seu estado atual por, no fundo, temermos ter o mesmo destino.

 

 

 

Meryl Streep na pele de lady Thatcher já octogenária

 

 

Escrito por will robinson às 20h39
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Adapte-se ou morra! (parte 2)

George Clooney, Shailene Woodley e Amara Miller são Os Descendentes

 

"Paradise? Paradise can go fuck itself." A frase, que dispensa tradução, é uma das primeiras coisas que ouvimos do milionário Matt King (George Clooney) em Os Descendentes. Ele se refere ao Havaí, onde vive, considerado por muitos o paraíso na terra, mas onde também se sofre, se fica doente e se morre. E é com a iminente morte da esposa (Patricia Hastie), em coma após um acidente, que ele tem de se defrontar. Ao mesmo tempo em que tem de tomar conta sozinho das duas filhas, a adolescente rebelde Alexandra (Shailene Woodley) e a desbocada menina Scottie (Amara Miller), ainda tem de lidar com uma importante decisão involvendo uma área de praia paradisíaca herdada de seus ancestrais e prestes a ser vendida, e em meio a um turbilhão emocional ainda descobre que sua mulher o estava traindo com um corretor de imóveis (Matthew Lillard) casado e ambicioso. Clooney prova mais uma vez seu talento ao dotar seu personagem de muitas camadas, retratando um homem confuso e perdido, sem poder acertar as contas com a mulher que se tornou um vegetal, tendo de lidar com o sogro rancoroso e a sogra demente, descobrindo que os amigos do casal eram cúmplices do adultério e ainda tendo que aparecer aos outros como alguém em pleno domínio da situação. Embora a belíssima trilha sonora do filme seja composta quase que totalmente por típica música havaiana, a canção que nos ocorre durante o filme é um clássico brasileiro de Erasmo Carlos: "Sempre me dizem quando fico sério: Ele é um homem e entende tudo! Por dentro com a alma atarantada, sou uma criança, não entendo nada." E não somos todos?

 

 

Jean Dujardin e o cachorro Uggie, que rouba todas as cenas em que aparece em O Artista

 

O conflito do personagem fictício George Valentin (Jean Dujardin) em O Artista é o mesmo vivido na vida real por vários astros do cinema mudo que não se adaptaram à passagem para o cinema sonoro. O fato de O Artista homenagear o cinema mudo sendo ele mesmo um filme mudo e preto-e-branco, é ao mesmo tempo seu maior trunfo e sua grande limitação. O filme é sem dúvida encantador em seu anacronismo proposital, é uma produção impecável, belamente fotografado e interpretado, mas depois que a novidade se esgota e passamos a prestar atenção na história, um certo tédio se instala. Pois a história contada nesse filme é basicamente a mesma das várias versões de Nasce uma Estrela: atriz em ascensão (Bérénice Bejo) que se apaixona por astro em decadência. Sem poder recorrer aos diálogos, além das breves "falas" contidas nas legendas, seus personagens se revelam um tanto rasos e desinteressantes. Além disso Dujardin baseia sua caracterização principalmente no Gene Kelly de Cantando na Chuva, filme que retratava o mesmo período de transição vivido pelo cinema de forma muito mais eficiente.

 

 

Asa Butterfield e Chloë Grace Moretz se encantam com o cinema em A Invenção de Hugo Cabret

 

 

 

Ao contrário, o mestre Martin Scorsese, em seu encantador A Invenção de Hugo Cabret, recorre a todos os recursos que a moderna tecnologia oferece e dá uma aula de como usar o 3D de forma criativa e eficiente, sem a gratuidade dos efeitos que os filmes do gênero vinham ostentando, e tudo isso para homenagear os primórdios do cinema, na pessoa de seu primeiro grande criador, o francês Georges Méliès, interpretado por Ben Kingsley.

 

 

Asa Butterfield e Ben Kingsley

 

O garoto Hugo Cabret (interpretado com sensibilidade por Asa Butterfield) é um órfão que após a morte do pai (Jude Law) é levado a viver nos túneis por trás dos relógios da Estação Montparnasse, em Paris, por seu tio alcoólatra (Ray Winstone). Após o desaparecimento do tio, o garoto cuida sozinho dos relógios da estação, tenta fugir do inspetor trapalhão (Sacha Baron Cohen), vive de pequenos furtos e ainda tenta consertar um autômato que seu pai resgatou de um museu antes de morrer, acreditando que a máquina talvez lhe traga uma mensagem de seu pai. Para isso ele rouba peças de um vendedor de brinquedos da estação, fica amigo da afilhada dele, uma garota também órfã (Chloë Grace Moretz) e juntos acabam desvendendo o mistério que une o autômato ao carrancudo vendedor de brinquedos.

 

 

Asa Butterfield e Jude Law com o autômato

 

 

Há vários temas presentes nesse filme que muitos apressados podem achar destinado apenas ao público infanto-juvenil. Além dos principais personagens serem órfãos e terem de lidar com a falta de referências tão importantes para uma criança quanto os pais (até o vilão se revela órfão a certa altura), há também o questionamento constante dos pequenos protagonistas sobre a função que teriam a desempenhar nessa vida. Será que, assim como o autômato que sem funcionar perde completamente sua utilidade e seu encanto, também os seres humanos precisariam ser "consertados" para poder cumprir sua função no mundo?

 

Talvez uma possível resposta a essa pergunta esteja naquele primeiro filme que comentei aqui, O homem que mudou o jogo. Pois embora eu tenha dito lá em cima que foi um martírio assisti-lo, o fato é que há algo de inquietante em sua conclusão. Acontece que a filha adolescente do protagonista (Kerris Dorsey) canta e toca violão, e a certa altura do filme ela interpreta para um pai babão uma canção da cantora australiana Lenka, chamada The Show, e num momento em que o pai precisa tomar uma decisão que pode mudar sua vida ele coloca pra tocar no carro o cd que ela gravou pra ele. Só que na gravação a garota muda a letra da música e em vez de cantar "I want my money back, just enjoy the show", como no original, ela diz "You're such a loser, dad, such a loser, just enjoy the show". Você é um perdedor, pai, apenas aproveite o show. E talvez essa seja a lição mais valiosa a se tirar de todos esses personagens complicados e fascinantes: mais importante que ganhar ou perder, é aproveitar a jornada.

 

 

Lenka - The Show (Jason Reeves, Lena Kripac)

 Para ouvir a versão exibida no final do filme, na voz da atriz mirim Kerris Dorsey e com a letra ligeiramente alterada, clique aqui.

 

Escrito por will robinson às 19h44
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07/01/2012


Até a disputa pelo poder corrompe absolutamente

O filme: Tudo pelo poder

Título original: The ides of March (EUA, 2011)

Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon, baseado na peça Farragut North, de Beau Willimon

Produção: George Clooney, Grant Heslov, Brian Oliver

Direção: George Clooney

 

 

 

O outro filme: Segredos do Poder

Título original: Primary Colors (EUA, 1998)

Roteiro: Elaine May, baseado no romance de Joe Klein

Produção e direção: Mike Nichols

 

 

 

Tudo pelo poder, a começar pelo nome brasileiro, é em tudo semelhante a outro filme retratando os bastidores de uma campanha presidencial americana: Segredos do poder, de 1998. No filme de Mike Nichols, John Travolta interpretava um candidato baseado sem grandes disfarces em Bill Clinton, enquanto Emma Thompson representava sua mulher, baseada na atual secretária de Estado americana Hillary Clinton; e o inglês Adrian Lester fazia o jovem idealista que trabalhava na campanha por acreditar no candidato e depois vinha a se decepcionar com ele. No filme de George Clooney, o próprio diretor faz o papel do governador Mike Morris, pré-candidato do Partido Democrata, e Ryan Gosling é um dos assessores de sua campanha. Não faltou quem associasse o personagem de Clooney a Barack Obama, ainda mais que Clooney é um democrata convicto e participou ativamente da campanha vitoriosa de Obama à presidência. Mas a peça em que o filme se baseia foi escrita tendo em mente a campanha nas primárias do então governador de Vermont, Howard Dean, em 2004, o qual acabou perdendo a indicação do partido Democrata para o senador John Kerry, o qual por sua vez foi derrotado na eleição por George W. Bush.

 

 

Adrian Lester e John Travolta em Segredos do Poder

 

Uma rápida explicação para quem não entende muito de política é necessária para o bom entendimento do filme. Nos Estados Unidos há apenas dois partidos com representação no Congresso: o Republicano, mais conservador, ao qual pertence o ex-presidente George W. Bush, e o Democrata, mais liberal, de Obama e Clinton. De 4 em 4 anos, cada um dos partidos passa por um complicado e complexo sistema de primárias nos Estados americanos, para que cada um dos Estados se decida por um dos pré-candidatos. Basicamente, aquele que tiver o maior apoio se torna o candidato do partido a presidente. Atualmente, o presidente Barack Obama já foi declarado candidato à reeleição este ano, e o Partido Republicano está em pleno processo de primárias, como as que são retratadas em Tudo pelo poder.

 

 

George Clooney e Ryan Gosling em Tudo pelo poder

 

A maior diferença entre o filme atual e o anterior é que em Segredos do Poder o jovem idealista se decepciona com seu candidato mas preserva sua dignidade, e em Tudo pelo poder o personagem de Ryan Gosling, ao descobrir os podres de seu candidato, acaba se rendendo à cínica constatação de que os fins justificam os meios -- ou seja, de que a fim de chegar ao poder e assim colocar em prática seus ideais, é preciso sujar as mãos no meio do caminho, ainda que isso venha a ferir de morte a parte mais fraca na história. E é aí que o filme, à primeira vista tão enraizado nas práticas políticas americanas, se torna universal -- e não é à toa que seu título original, "Os idos de março", é uma citação shakesperiana que remete ao assassinato de Júlio César por um de seus mais próximos aliados.

 

Evan Rachel Wood e Ryan Gosling em Tudo pelo poder

 

O papel que o autor destas linhas teve no partido que atualmente ocupa o poder em nosso país é irrelevante comparado ao dos personagens de ambos os filmes -- fui apenas um simpatizante que teve sua fase de militância e que chegou a trabalhar ativamente numa campanha eleitoral de um político que acabou se tornando a face mais nefasta do partido que prometia ser diferente de todos os outros e terminou se revelando igual a todos os outros nos meios que usou para atingir seus fins. (Dando nome aos bois: estou me referindo ao ex-ministro José Dirceu). Se "o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente", como disse Lord Acton, o que vemos hoje em dia é que a simples disputa pelo poder já corrompe absolutamente.

 

Mas para terminar esse texto sem o travo amargo que o filme de George Clooney deixa em seu final, fica uma esperança: a de que os movimentos espontâneos de mobilização popular em todo o mundo que levaram a revista Time a definir a figura do "manifestante" como o homem do ano de 2011, representem uma nova forma de fazer política, que não seja tão hipócrita quanto aquela que é feita pelos políticos profissionais.

 

 

 

Escrito por will robinson às 23h44
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27/11/2011


A pele, o corpo, a mente, o sexo... dá pra separar?

Filme: A PELE QUE HABITO

Título original em espanhol: La piel que habito (Espanha, 2011)

Roteiro: Pedro Almodóvar, baseado no livro Tarântula (Mygale), de Thierry Jonquet

Produção: Agustín Almodóvar e Esther García

Direção: Pedro Almodóvar

 

 

 

Tenho visto e lido muitas bobagens sobre o filme A pele que habito, o mais recente daquele que é na minha opinião o maior cineasta vivo, o espanhol Pedro Almodóvar. A mais frequente é de que este seria um Almodóvar atípico, completamente diferente de tudo o que ele já fez. Outra é de que o filme é frio, cerebral demais e sem o calor e o melodrama de seus filmes anteriores.

 

Na verdade todos os temas presentes neste filme são temas recorrentes na obra de Almodóvar. Aqui temos uma pessoa sequestrada e mantida em cativeiro por seu algoz, como em Ata-me, com inclusive o mesmo protagonista, Antonio Banderas. Temos o tema da mudança de sexo, como em Tudo sobre minha mãe. Há a rivalidade entre irmãos, e a troca de identidades, como em Má Educação. Há a submissão de corpos impotentes diante do desejo alheio, como em Fale com Ela. E sobretudo há o eterno e recorrente tema do desejo e de seus insondáveis desígnios, como em toda a filmografia do diretor.

 

 

 

Também esteticamente não se notam diferenças tão gritantes. Na verdade a estética do filme me lembrou muito Fale com Ela, na minha opinião a obra-prima do diretor. Em ambos há a aproximação entre diferentes artes, nesse caso as artes plásticas entrando no lugar da dança no outro filme. Nada mais natural, afinal o protagonista é um cirurgião plástico, em busca da criação de um corpo perfeito e de uma pele invulnerável, um esteta obcecado pela busca da beleza e da perfeição, e não é de se estranhar que sua casa seja repleta de belíssimas obras de arte -- e a beleza dos quadros se reflete muitas vezes na posição dos atores em cena, como se estivessem posando para um artista (e não estão?). Mas também o uso da música é semelhante. Se em Fale com Ela Caetano Veloso marcava presença cantando em espanhol, aqui a cantora espanhola Buika aparece cantando uma canção que já havíamos ouvido anteriormente em português no próprio filme, e que terá importância fundamental no desenrolar da história. (A canção é Pelo amor de amar, de José Toledo e Jean Manzon, e gravada por Ellen de Lima nos anos 50. Escute a gravação original aqui.) Aliás, o Brasil é uma presença constante nesse filme, embora não de forma explícita.

 

 

Antonio Banderas e Elena Anaya, ambos impecáveis

 

É difícil falar da história sem entregar detalhes que podem estragar um pouco as surpresas que o filme reserva -- eu mesmo, embora não tivesse lido muitas críticas sobre o filme antes de vê-lo, li o suficiente para adivinhar o grande segredo muito antes da revelação. Mas a verdade é que A pele que habito, como toda obra de arte que se espera de um grande artista como Almodóvar, não se esgota nas surpresas que o roteiro reserva para o espectador. É verdade que dessa vez ele escolheu trabalhar na chave de um filme de suspense, embora o humor esteja lá presente o tempo todo, muito mais discreto, no entanto, que em alguns de seus filmes anteriores. Mas o suspense é apenas o meio, não o fim. Os segredos são a cereja do bolo, não a essência do filme. O que importa mesmo é o mergulho profundo na alma de seus personagens, os quais podem parecer à primeira vista caricaturas grotescas e monstruosas de seres humanos, mas que não passam de retratos, vistos com lente de aumento, do monstro que habita em cada um de nós. Dentro de nossa pele.

 

Buika interpretando Por el amor de amar (Pelo amor de amar), de José Toledo e Jean Manzon

 

Escrito por will robinson às 04h26
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03/11/2011


Por um sentido na vida

A peça: OS ALTRUÍSTAS

Título original em inglês: The Altruists

Texto: Nicky Silver

Tradução: Érica de Almeida Rego Migon e Úrsula de Almeida Rego Migon

Elenco: Mariana Ximenes, Kiko Mascarenhas, Jonathan Haagensen, Miguel Thiré e Stella Rabello

Produção: Mariana Ximenes, Francisco Accioly e Roberto Vitorino

Direção e adaptação: Guilherme Weber

 

O filme: A PARTIDA

Título original em japonês: Okuribito (Japão, 2008)

Roteiro: Kundô Koyama, baseado no livro Nkanfu Nikki, de Aoki Shinmon

Produção: Toshiaki Nakazawa, Ichirô Nobukuni, Toshihisa Watai

Direção: Yôjirô Takita

 

O outro filme: MINHAS TARDES COM MARGUERITTE

Título original em francês: La tête en friche (França, 2010)

Roteiro: Jean Becker e Jean-Loup Dabadie, baseado no livro de Marie-Sabine Roger

Produção: Louis Becker

Direção: Jean Becker

 

"O Tim fez tudo o que podia fazer na vida. Comeu as mulheres que queria, usou o que quis, fez músicas maravilhosas, conheceu gente bacana, mas nunca esteve realmente feliz. Sempre achava que queriam roubar a mulher, o guitarrista, os cachorros... Acho que o único ano que ele foi realmente feliz foi quando frequentou a igreja [a doutrina Cultura Racional]. Não bebia, não cheirava, perdeu 20 kg. Musicalmente, foi a melhor fase de sua carreira. (...) É como o cara que se torna evangélico: encontrou um sentido pra vida."

Nelson Motta em entrevista a Paulo Lima, falando sobre Tim Maia

 

Qual é mesmo o sentido da vida? Eis a pergunta que tem mobilizado filósofos, escritores, poetas, artistas, psicólogos, teólogos, desde que o ser humano adquiriu consciência de sua própria existência -- e jamais ninguém chegou a qualquer conclusão definitiva sobre o tema.

 

 

 

Em sua peça Os Altruístas, o americano Nicky Silver retrata um grupo de pessoas que parecem procurar um sentido em suas existências através de um suposto altruísmo. Segundo a Wikipédia, "Altruísmo é um tipo de comportamento encontrado nos seres humanos e outros seres vivos, em que as ações de um indivíduo beneficiam outro trazendo, algumas vezes, até mesmo algum tipo de prejuízo para o próprio." Vejamos: a protagonista do espetáculo é uma atriz de novelas, Sydney (vivida com brilhantismo por Mariana Ximenes), a qual acredita que seu trabalho equivale ao de um assistente social, uma vez que ela leva conforto às vidas solitárias e tediosas das pessoas que acompanham sua novela açuçarada. Mas não se sabe se é realmente por sentir uma vontade maior de ajudar o próximo ou simplesmente por amor ao namorado, Tony (Miguel Thiré), se é que é possível falar em amor no universo niilista de Nicky Silver, Sydney usa o dinheiro que ganha como estrela de televisão para sustentar o grupo de ativistas ao qual pertence o namorado. Ativistas que lutam por uma causa, seja ela qual for, ao ponto da ativista Cybil (Stella Rabello), uma "lésbica política" que vive com uma mulher mas só se interessa sexualmente por homens, não ter ideia de contra o que vão protestar na passeata agendada para a tarde do dia em que se passa a história.

 

Já o irmão de Sydney, Ronald (o igualmente ótimo Kiko Mascarenhas, que atua o tempo todo vestindo uma camisola feminina), é realmente um assistente social, e leva o trabalho tão a sério que se envolve sexualmente com os desprivilegiados que deveria ajudar. No momento em que começa a história ele está perdidamente apaixonado por um michê com quem passou a noite, o simplório Lance (Jonathan Haagensen), o qual, talvez devido à total falta de ambição intelectual, é o único personagem a ser tratado com alguma simpatia pelo autor, e não por acaso será o primeiro a ser sacrificado pelos demais "altruístas" no momento em que a ação praticada por um deles ameaça causar algum prejuízo concreto aos interesses do grupo.

 

 

 

Por trás do cinismo cruel com que Nicky Silver retrata seus personagens, é possível perceber neles uma ânsia por achar algum sentido para justificar suas existências. O mais cruel nesses personagens é justamente a sinceridade com que parecem justificar suas ações arbitrárias, acreditando que estão realmente agindo para melhorar o mundo em que vivem.

 

 

 

Por falar em falta de ambição intelectual, será que a ignorância pode ser, paradoxalmente, uma proteção contra a depressão que acomete aqueles que pensam demais? Essa parece ser a questão que motivou o diretor Jean Becker a realizar Minhas tardes com Marqueritte, cujo nome original, La Tête en Friche, significa justamente algo como "cabeça vazia". Refere-se a Germain (Gérard Depardieu, magistral como sempre), um homem simples, mas não simplório, morador de uma cidadezinha do interior da França. Sem profissão definida, ele sobrevive de pequenos bicos e trabalhos braçais, vive num trailer no quintal da casa de sua mãe (vivida por Claire Maurier e nos flashbacks, quando jovem, por Anne Le Guernec), com quem tem uma relação difícil, cultiva legumes em sua horta a fim de aumentar os rendimentos e namora a motorista de ônibus Annette (Sophie Guillemin). Provavelmente disléxico, era ridicularizado na escola por não conseguir ler direito e se sentia rejeitado pela mãe, que não demonstrava qualquer carinho por ele. Sem muita auto-estima, sofrendo gozações até dos amigos por sua ignorância e falta de tato, é no entanto um homem profundamente sensível e carente, que sempre arruma um tempinho para dar comida aos pombos numa pracinha. E é aí que conhece Margueritte (Gisèle Casadesus), uma senhora idosa e solitária que como ele gosta de observar os pombos e dar-lhes apelidos conforme suas características individuais (sim, pombos têm personalidades distintas, sim senhor).

 

 

 

Margueritte (com dois Ts, como ela faz questão de frisar), que com o decorrer da história descobriremos tratar-se de uma médica aposentada que dedicou a vida à carreira e a ajudar os desvalidos e por isso não constituiu família, tem nos livros sua grande companhia. Começa a ler em voz alta A Peste, de Albert Camus, para Germain, e este tanto se encanta com a experiência que passa a adotar o hábito diário de ler com sua amiga, pois como ela lhe explica ele é tão leitor quanto ela, embora esteja apenas ouvindo. Com o tempo um novo mundo se abre para o rapaz, trazendo-lhe uma nova visão da vida e de si mesmo, embora nem sempre ele goste das coisas que começa a entender -- nós que pensamos demais sabemos o quanto isso pode ser doloroso às vezes.

 

 

 

Assim como muitos dos problemas de Germain se originam na falta de amor por parte da mãe inconsequente e de um pai que nunca conheceu, também o músico Daigo (Masahiro Motoki), protagonista de A Partida, se ressente da ausência do pai, que o abandonou quando tinha apenas seis anos, e se sente culpado por não ter estado perto da mãe quando ela faleceu. Quando seu sonho de tocar violoncelo numa grande orquestra se despedaça, Daigo e sua esposa, Mika (Ryoko Hirosue), mudam-se para a casa que foi de sua mãe, no interior. Procurando emprego, ele responde a um anúncio sem saber direito do que se trata e acaba trabalhando para Ikuei Sasaki (Tsutomu Yamazaki), um homem que se especializou em preparar corpos para velório. Mas não se trata apenas de lavar, vestir e maquiar um corpo para que fique apresentável para sua família, e sim de fazer tudo isso na presença da família, de forma respeitosa e ritualística, de maneira que a família e os amigos do falecido possam dar-lhe o último adeus e guardar uma última imagem agradável de seu ente querido. Tal ritual resulta em cenas poeticamente intensas e emocionantes, onde não há espaço para qualquer traço de morbidez. Uma das cenas mais impactantes é quando o pai de um adolescente transexual que cometeu suicídio vem agradecer chorando aos profissionais que a pedido da mãe vestiram e maquiaram o corpo com vestes femininas, dizendo que nunca havia aceitado o filho como transgênero, mas ao ver o sorriso no corpo inerte reconheceu o sorriso daquele que seria sempre seu filho, independente de como estava vestido.

 

(E aqui abro um parênteses para contar uma história pessoal. Quando meu pai faleceu, depois de longa e penosa enfermidade, não houve velório, como era seu desejo. Mas ficamos eu, minha mãe, meu irmão, minha cunhada e minha tia a noite toda no hospital, numa espécie de velório sem corpo, esperando para que pudéssemos vê-lo pela última vez antes que o caixão fosse fechado. E ao vê-lo enfim, barbeado, maquiado, vestido, cercado de flores e com um semblante sereno, pudemos todos guardar dele uma última lembrança muito diferente do semblante abatido e sofrido que ele demonstrava em seus últimos dias de vida. E por ter visto esse filme depois de ter tido essa experiência é que pude entendê-lo em toda a sua plenitude.)

 

O curioso é que ao trabalhar com a morte, um trabalho que provoca repulsa em seus amigos e até mesmo em sua esposa, é que Daigo redescobre o gosto de viver e volta a tocar seu violoncelo apenas por prazer, sem ter a necessidade do aplauso de um público. Encontrou um sentido para a sua vida, assim como Germain, que encontrou o seu não só no conhecimento mas também no amor maternal que não teve de sua própria mãe e encontrou na amiga idosa. E não é por acaso que em ambos os filmes, o francês e o japonês, os protagonistas se vejam na perspectiva de serem pais justamente no momento em que perdem o genitor que lhes causou tanto sofrimento e descobrem, para sua imensa surpresa, que afinal, mesmo de um jeito tortuoso e obscuro, foram amados.

 

 

 

E quem sabe o sentido da vida não seja esse, justamente? Ou, como tão bem definiram Lennon e McCartney,

 

"And in the end the love you take is equal to the love you make."

 

The Beatles, The End (John Lennon, Paul McCartney)

 

Escrito por will robinson às 01h55
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26/09/2011


It gets better... I hope

Aconteceu de novo.

 

Mais um jovem adolescente americano tirou sua própria vida, por não aguentar o bullying, as agressões e provocações de que era vítima, pelo simples fato de questionar sua sexualidade.

 

 

James Rodemeyer, 14 anos, era um garoto sensível que adorava Lady Gaga e se declarava bissexual. Sua mãe diz nessa entrevista que havia anos que o garoto reclamava de bullying e já revelava tendências suicidas.

 

Por causa de casos como o dele, que vêm se multiplicando assustadoramente nos últimos anos, o escritor americano Dan Savage e seu marido Terry Miller lançaram o projeto It gets better, o qual reúne depoimentos de pessoas que já foram vítimas de bullying relatando suas histórias a fim de inspirar esperança aos jovens e assegurar-lhes que o difícil período da adolescência e da vida escolar vai passar e eles vão conseguir viver sua vida do jeito que escolherem, e serem aceitos pelo que são. Entre as diversas celebridades que já gravaram depoimentos para o projeto está o próprio presidente Barack Obama.

 

O mais irônico na história do garoto James é que ele próprio havia gravado um depoimento para esse projeto alguns meses antes de cometer suicídio. Veja trechos desse depoimento nessa reportagem de Anderson Cooper para a CNN (em inglês):

 

 

Em seu depoimento, o garoto cita a música Born this way, de sua cantora preferida, a excêntrica e divertida Lady Gaga, a qual vem realizando um belo trabalho contra a homofobia juntamente com outras cantoras famosas como a pioneira Cyndi Lauper. Fui atrás desse vídeo, que ainda não tinha visto inteiro (admiro Lady Gaga por suas ousadias artísticas mas não sou grande fã de sua música) e me deparei com a figura bizarra do modelo Rick Genest, o qual tem o rosto e toda a parte superior do corpo tatuada para parecer um corpo em decomposição. Pesquisando sobre o rapaz, acabei descobrindo uma entrevista linda com a mãe dele, dizendo que ela e o restante da família, que ela descreve como bastante conservadora, aceitaram o moço como ele é, mesmo porque é uma pessoa carinhosa e responsável.

 

 

Essa história me fez lembrar uma senhora inglesa que me hospedou quando estudei em Londres, chamada Jean, uma típica dona de casa conservadora que tinha um filho punk que usava cabelo moicano, piercings e tatuagens e morava com ela e o pai na época. Lembro de ouvir Jean dizer que aceitava o filho sem problemas, porque o conhecia, sabia o ser humano que ele era, sabia que sua aparência não influenciava sua maneira de ser, e por causa dele aprendeu a também não julgar os outros pela aparência.

 

E é exatamente por isso que pessoas que pertencem a alguma minoria que sofra algum tipo de discriminação, sejam elas (nós) gays, negros, punks, tatuados, góticos, ateus, qualquer coisa, enfim, precisamos mostrar nossa cara, mostrar quem somos, mostrar que somos gente como todo mundo, justamente para que a sociedade aprenda a nos respeitar e a nos aceitar como somos. E para que jovens como James nunca mais precisem abrir mão da própria vida antes mesmo de saber o que é viver.

 

 

Parabéns Papai Gay e Filhão por mostrarem a cara e gritarem contra o preconceito!

 

 Veja aqui algumas canções feitas por artistas americanos contra o bullying e a favor da auto-estima e do direito à diferença.

 

Escrito por will robinson às 05h54
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18/07/2011


Em defesa do entendimento

A peça: Doze homens e uma sentença

Título original em inglês: Twelve angry men

Autor: Reginald Rose

Tradução: Ivo Barroso

Elenco: Norival Rizzo, ZéCarlos Machado, Oswaldo Ávila (substituindo o recém-falecido José Renato), Oswaldo Mendes, Gustavo Trestine, Riba Carlovich, Haroldo Ferrary, Ricardo Dantas, Brian Penido, Augusto César, Fernando Medeiros, Ivo Müller e Adriano Bedim

Direção: Eduardo Tolentino de Araújo

 

 

 

 

Doze homens e uma sentença é um texto que deveria ser matéria obrigatória nas escolas brasileiras, seja como texto para ser lido, seja em uma de suas versões filmadas (foi feito para o cinema em 1957 com Henry Fonda e direção de Sidney Lumet, a partir de um roteiro de televisão de Reginald Rose, e refeito para a televisão americana em 1997, com Jack Lemmon e George C. Scott), ou visto no teatro como nessa excelente montagem em cartaz em São Paulo somente até o final de julho. Por que digo isso? Por que estamos vivendo em época tão conturbada, com tantas demonstrações de preconceito e intolerância sendo confundidas com liberdade de expressão, intolerância essa que vem se manifestando desde cedo entre crianças e adolescentes em forma de bullying, que algo precisa ser feito urgentemente para que voltemos a nos comportar como seres civilizados.

 

A peça se passa em tempo real, mostrando a reunião de doze jurados, todos homens e brancos (pois se passa nos machistas e racistas Estados Unidos dos anos 50), que precisam decidir se um adolescente acusado de matar o próprio pai é culpado ou inocente. Pela lei a decisão deve ser unânime, e onze dos jurados já chegam à sala de discussão com sua opinião formada e convictos da culpa do rapaz, ansiosos por se livrar logo de um dever cívico que todos afirmam reconhecer como importante mas que nenhum deles pediu. Só que um dos jurados, que são identificados apenas por números, afirma que tem dúvidas sobre a culpa do garoto -- e como a lei exige que o veredito de culpado seja dado apenas caso não haja dúvida razoável, parte-se para uma acirrada discussão sobre a culpa ou a inocência do réu.

 

A discussão está muito longe de ser civilizada, pois logo afloram os preconceitos e pré-julgamentos que levam cada um daqueles homens a formar a opinião que têm. O réu, a vítima e as testemunhas são todos moradores de um cortiço, o que leva muitos dos jurados a demonstrar seus preconceitos de classe. Também há uma sugestão não explícita de racismo, embora nunca se afirme que o réu seja negro, quando um dos jurados se exalta e grita algo como "Precisamos acabar com eles antes que acabem com a gente!" Neste momento todos os outros personagens se colocam de costas para o racista, mesmo aqueles que acreditam na culpa do rapaz, numa demonstração de que mesmo em meio a um debate acirrado e apaixonado, não compartilham daquela visão de mundo que divide a humanidade entre "nós" e "eles".

 

Aliás a direção de atores, a cargo do experiente Eduardo Tolentino de Araújo, do famoso Grupo Tapa, é uma das melhores coisas dessa montagem. Com um elenco de atores de idades e perfis diferentes, um cenário que se resume a uma mesa e algumas cadeiras, o diretor imprime ao espetáculo um ritmo e uma movimentação cênica que não deixam nunca a bola cair, colocando-se no mesmo nível do texto afiado.Uma peça imperdível e emocionante para quem ainda acredita no valor do debate e da troca de ideias como ponte para um entendimento entre os diferentes.

 

 

Escrito por will robinson às 22h11
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24/03/2011


Para sempre Liz

Alguns astros se tornam mitos porque vivem intensamente, morrem cedo e deixam eternizada sua juventude, tornando-se assim, como vampiros, para sempre jovens e belos: é o caso de James Dean e Marilyn Monroe. Outros optam por se retirar de cena no auge, deixando-se envelhecer longe dos holofotes, para que a imagem a ser eternizada, essa sim mantenha a sua beleza eterna: foi a opção de Greta Garbo. Há outros ainda que, tendo sido deuses da beleza, não têm vergonha de mostrar na tela sua decadência física, a queda dos cabelos, o acréscimo de gordura no corpo, as rugas no rosto, porque sabem que seu talento é maior do que tudo isso: foi o que fez Marlon Brando.



Paul Newman e Liz Taylor em Gata em teto de zinco quente


E há ainda aqueles raros privilegiados que envelhecem com graça e elegância e mantêm o charme, a chama e o talento até o final. Foi o caso de Paul Newman, foi também o caso de Elizabeth Taylor. Tendo sido uma das mulheres mais deslumbrantes da história do cinema, mesmo em suas últimas aparições públicas, fragilizada pelos inúmeros problemas de saúde e pelos excessos de sua vida atribulada, mesmo inchada, envelhecida e presa a uma cadeira de rodas, bastava olhar para aqueles olhos cor de violeta para ver as faíscas que demonstravam a existência da chama interna, uma chama que nunca se apagou.


Liz como Cleópatra

Há muitos filmes memoráveis em seu currículo, há muitas cenas inesquecíveis, há muitas personagens fascinantes para dar conta de lembrar em apenas algumas linhas. Vou citar então uma única cena que ficou marcada em minha memória: a cena em que Cleópatra, no filme de Joseph L. Mankiewicz, recebe o imperador romano Marco Antonio em seu palácio, vivido pelo igualmente intenso e inesquecível Richard Burton, o grande amor de sua vida, e ordena a ele que se ajoelhe. Quando o poderoso conquistador se recusa, ela diz, imponente: "A Julio César eu pedi que se ajoelhasse. De você eu exijo. De joelhos, é uma ordem!" E diante daqueles olhos violeta faiscando de cólera e autoridade, é claro que Marco Antonio e todo seu séquito se ajoelham feito cordeirinhos.


Richard Burton e Liz Taylor em Quem tem medo de Virginia Woolf?


Foi ao lado de Burton que ela fez aquele que é provavelmente seu grande papel, pelo qual ganhou seu segundo Oscar e pelo qual será eternamente lembrada não apenas como a mulher de beleza perfeita, mas também como grande atriz: a Martha de Quem tem medo de Virginia Woolf?, filme de Mike Nichols baseado na peça de Edward Albee, em que Liz, aos trinta e poucos anos, interpreta uma mulher de seus cinquenta e poucos, alcoólatra e amargurada. Fiquei chocado quando descobri que esse filme foi feito na mesma época que A megera domada, texto de Shakespeare dirigido por Zeffirelli, em que Liz e Burton estão ambos no auge da beleza e em plena forma. Não se tratava na época, como não se trata hoje, de "ficar feia" para conseguir seu Oscar, como tantos críticos engraçadinhos se apressam a rotular tantas atrizes, mas de usar maquiagem, figurinos e mesmo a transformação do corpo a serviço do talento e do perfeito entendimento do que o personagem pede, pois sem isso de nada serviriam os recursos materiais.


James Dean, Liz Taylor e Rock Hudson no set de Assim caminha a humanidade



Inesquecível e eterna Liz: se existe um paraíso, com certeza ele estará em festa hoje, pois seus amigos Montgomery Clift, Rock Hudson, James Dean, Michael Jackson, e mesmo seus amores, com Richard Burton à frente, estarão vestidos a caráter para uma grande celebração hollywoodiana, à qual você fará questão de convidar também as inúmeras pessoas que ajudou com sua luta contra a Aids e contra a discriminação. E obrigado por ter existido!


Liz Taylor e Montgomery Clift em Um lugar ao sol


Michael Jackson interpreta Elizabeth, I love you, em homenagem à sua grande amiga


P.S.: Leia também a inteligente e emocionante homenagem do Vitor Angelo em seu Blogay.

 

Escrito por will robinson às 02h13
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05/03/2011


A loira virou mito, mas a morena também era inesquecível

Apesar de ter estrelado mais de duas dezenas de filmes, a maioria nos anos 40 e 50, Jane Russell será eternamente lembrada por apenas dois deles: o primeiro, O proscrito (The outlaw, 1943), mais pela controvérsia que causou que por sua qualidade; e principalmente Os homens preferem as loiras (Gentlemen prefer blondes, 1953), ao lado da mítica Marilyn Monroe.

 

 

 

O proscrito entrou para a história como um dos dois únicos filmes dirigidos pelo excêntrico milionário-aviador-cineasta Howard Hughes (interpretado por Leonardo di Caprio no ótimo O aviador, de Martin Scorcese). Hughes era prolífico produtor de cinema, mas como diretor assinou apenas o drama de guerra Hell's Angels (1930) e o western O proscrito, este depois de ter brigado com o diretor original, Howard Hawks (o mesmo que mais tarde dirigiria Os homens preferem as loiras). O proscrito, que mostra os personagens históricos Billy the Kid (Jack Buetel), Pat Garrett (Thomas Mitchell) e Doc Holliday (Walter Huston) numa história fictícia, na qual a amizade entre eles é perturbada pela misteriosa Rio (Russell), já nasceu envolto em polêmica. Isso porque finalizado em 1941, o filme demorou dois anos para estrear devido à implicância da censura com os closes generosos no decote de Jane Russell, que segundo consta foi escolhida para o filme em função de seus atributos físicos. Durante esses dois anos de espera Hughes aproveitou para divulgar o filme fazendo sua estrela viajar por todo o país e espalhando a história de que ele teria pessoalmente criado um revolucionário sutiã a fim de ressaltar os fartos seios de sua protagonista. Na verdade, Jane revelou em sua autobiografia que jamais usou o tal sutiã, desconfortável demais, embora nunca tivesse dito isso a seu diretor.

 

Tanta implicância com os seios de Jane Russell, no entanto, deve ter desviado a atenção da censura da verdadeira polêmica que envolvia o filme. Qualquer um que saiba ler nas entrelinhas percebe rapidamente o subtexto homoerótico do filme. O verdadeiro triângulo amoroso que existe aqui é entre os dois veteranos cowboys e o belo jovem vivido por Buetel. A personagem de Jane é maltratada o tempo todo pelos personagens masculinos, chegando em algumas cenas a parecer vítima de um ritual sado-masoquista. Segundo o biógrafo de Howard Hughes, Charles Higham, contou no livro "O aviador" (o mesmo usado por Scorcese como base para seu filme), o diretor era bissexual e manteria um relacionamento com o jovem Buetel, o qual não prosseguiu na carreira de ator, e o roteiro de O proscrito nada mais seria que o desenvolvimento de uma fantasia sexual de Hughes.

 

Jane Russell e Jack Buetel

 

Depois de se livrar de um contrato com Hughes que a impediu durante vários anos de fazer outros papeis, Russell já tinha se tornado uma estrela quando filmou Os homens preferem as loiras, enquanto Marilyn Monroe era ainda um nome em ascensão na indústria do cinema. É famosa a história em que Marilyn, ao saber que sua parceira de cena ganharia muitas vezes mais que ela, embora ambas fossem protagonistas, teria dito: "Mas o filme se chama Os homens preferem as loiras, e EU sou a loira!" De qualquer forma, esse foi o filme que catapultou a carreira de Marilyn diretamente para o estrelato, principalmente devido à famosa cena em que canta Diamonds are a girl's best friends, de Jule Styne e Leo Robin, certamente uma das cenas musicais mais famosas e imitadas de todos os tempos. O que poucos que não viram o filme sabem é que Jane Russell também cantava a mesma canção no filme, numa cena em que imitava a personagem de Marilyn (e que você pode ver aqui). O mais interessante é que tendo tudo para se tornar rivais, as duas atrizes foram na verdade grandes amigas. Os biógrafos de Marilyn são unânimes em revelar que era Jane Russell quem frequentemente conseguia convencer a colega, que sofria de crônica insegurança, a deixar o trailer e entrar em cena.

 

Marilyn e Jane ao eternizar seus nomes na calçada da fama em Hollywood

 

Jane Russell em sua melhor cena de Os homens preferem as loiras, em que canta Anyone here for love?, de Hoagy Carmichael e Harold Adamson, em meio a uma equipe de nadadores olímpicos seminus -- os quais parecem completamente indiferentes à deusa!

 

Depois de deixar o cinema, Jane Russell se tornou uma devota cristã e uma republicana conservadora convicta, mas gostava de ressaltar: "Conservadora sim, racista nunca!" De qualquer forma, deixou sua marca como uma das mulheres mais sensuais da história do cinema; uma pena que como muitas estrelas que se destacaram primeiro pela beleza, tenha sido subestimada como atriz, embora tivesse também muito talento.

 

Descanse em paz, Jane Russell.

 

Jane Russell e Marilyn Monroe interpretam Two little girls from Little Rock, de Jule StyneLeo Robin, na abertura de Os homens preferem as loiras

 

Escrito por will robinson às 02h20
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27/02/2011


Entrevista inédita com Caio F.

O escritor: Caio Fernando Abreu

Nascido em Santiago, Rio Grande do Sul, em 12 de setembro de 1948

Falecido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 25 de fevereiro de 1996

 

 

"Os homens precisam da ilusão do amor assim como precisam da ilusão de Deus, pra não afundar no poço horrível da solidão absoluta, pra não se perder no caos da desordem sem nexo."

(Caio Fernando Abreu, musicado por Laura Finocchiaro -- Necessidade)

 

Em 1992, eu era estudante de jornalismo na Fundação Cásper Líbero, em São Paulo, quando faleceu o poeta Péricles Eugênio da Silva Ramos, que era professor da faculdade mas que eu não cheguei a conhecer. Em homenagem a ele, um de meus professores planejou uma edição especial do jornal da faculdade voltado para a literatura, e pediu que entrevistássemos escritores famosos. Meu primeiro pensamento foi tentar um contato com minha autora favorita, Lygia Fagundes Telles, que já tinha conhecido anteriormente num evento literário (outro dia conto essa história aqui), mas como não consegui contatá-la naquela ocasião pensei então em outro de meus autores favoritos, o gaúcho Caio Fernando Abreu, cuja obra me acompanha desde a adolescência, quando o jovem confuso quanto à sua sexualidade procurava encontrar nos livros, já que não podia confiar nas pessoas, alguma resposta para suas inúmeras perguntas. Não que Caio tivesse respostas para dar, muito pelo contrário: sua obra, como a de qualquer artista que se preze, tem mais perguntas que respostas. Mas em seus livros pude encontrar personagens com quem me identificar, não necessariamente por serem gays, embora isso também contasse e muito para um adolescente em busca de referências, mas sim por serem almas atormentadas, cheias de conflitos, buscando alguma transcendência nesse caos que chamamos vida.

 

Do meu trabalho, liguei para a editora que tinha publicado seu último livro, o sensacional romance Onde andará Dulce Veiga (recentemente transformado em filme por Guilherme de Almeida Prado, com Maitê Proença, Carolina Dieckman e Eriberto Leão nos papéis principais). A pessoa que me atendeu foi super-atenciosa e em questão de minutos me pôs em contato com o próprio Caio, de modo que naquele mesmo dia saí do trabalho e me dirigi ao apartamento onde ele morava nos Jardins para entrevistá-lo. Ele me recebeu com muita cordialidade, embora não fosse exatamente uma pessoa muito sorridente, mas era muito gentil. Estava assistindo uma entrevista com Jorge Amado e quando perguntei se não queria esperar o fim do programa, ele me respondeu com seu senso de humor peculiar: "Não, eu já sei tudo que ele vai dizer mesmo."

 

Embora eu fosse apenas um jovem estudante querendo uma entrevista para o jornal-laboratório da faculdade, o escritor me tratou como um profissional, respondendo todas as minhas perguntas com objetividade e sem frescuras. Ouviu com paciência meus protestos de admiração e amor por sua obra, autografou meus livros preferidos -- o romance Onde andará Dulce Veiga, que ele comentou ter lhe dado um trabalho insano; o livro de contos Os dragões não conhecem o paraíso, de onde é tirada a citação que abre esse post; e o inesquecível Triãngulo das Águas, o qual contém três novelas, das quais "Pela noite", que narra o reencontro entre dois amigos de infância e o jogo de sedução que se estabelece entre eles, é uma das histórias mais memoráveis sobre um encontro de duas almas solitárias que se desejam mas têm medo de se conectarem que já li na minha vida; e ainda teve a bondade de concordar comigo quando disse que a canção Olhos vermelhos, de Guilherme Arantes, me fazia lembrar justamente a atmosfera dessa história. Ele ainda comentou que a atriz Regina Duarte gostava tanto de Pela noite que tinha lhe pedido para fazer uma adaptação teatral para duas atrizes, coisa que o próprio Caio, e eu concordo, achava quase impossível, pois a novela é uma história de amor entre dois homens, com todas as particularidades físicas e psicológicas que há numa relação desse tipo.

 

Uma das perguntas que fiz que não entraram na edição final foi por que a revista Veja tinha tanta implicância com ele a ponto de mencionar o nome dele, por exemplo, numa matéria sobre a Floresta Amazônica (ou seja, que não tinha nada a ver com literatura), usando uma metáfora do tipo: "É verdade que em meio à riqueza e à diversidade da Amazônia pode haver coisas tão inúteis quanto a literatura de Caio Fernando Abreu..." Ele respondeu simplesmente, "Eles sabem que não leio mais a Veja depois do que fizeram com Elis Regina na morte dela."

 

A certa altura ele reclamou de dores e vômitos que associava ao medo de criar, mas em retrospecto acredito que talvez já fossem os primeiros sintomas da Aids que lhe tiraria a vida alguns anos depois. Caio tinha uma coluna semanal no jornal O Estado de São Paulo e através dessas crônicas revelou ao público o diagnóstico da doença e todas as mudanças que ela provocou em sua vida, como voltar a morar com os pais em Porto Alegre e se dedicar à jardinagem, hobby que narrava com detalhes em suas crônicas.

 

No último dia 25 de fevereiro completaram-se 15 anos de sua morte. Em sua homenagem publico aqui uma edição da entrevista que fiz com ele, que afinal nunca foi publicada (a tal edição especial do jornal-laboratório nunca saiu) e cuja transcrição completa se perdeu, portanto essa edição que fiz na época é o único registro que restou de nossa conversa e permanecia inédito -- até agora.

 

will robinson - Você trata de questões muito polêmicas em seus livros, como homossexualismo, drogas, suicídio, Aids. Você pensa na reação do leitor, se ele vai ficar chocado ou não?

 

Caio Fernando Abreu - Não, não penso. Eu sou uma pessoa super-informada, e eu escrevo sobre esse mundo contemporâneo, real, que a gente vive. Se ele é feito de coisas violentas é a pura realidade, e se alguém se chocar com o real eu sinto muito, é uma atitude hipócrita. Eu sempre penso que literatura, no Brasil, é uma coisa meio dispensável. Como escritor você se sente socialmente inútil, não tendo nenhuma possibilidade de participar de uma melhora da situação social do país. Mas acho que o papel do escritor é registrar a realidade emocional contemporânea, e dessa forma não exatamente fotografar, mas retratar o seu tempo. Esse é o nosso trabalho social.

 

-- De onde você tira seus personagens e suas histórias?

 

-- Os personagens saem da observação de pessoas reais. A figura da Dulce Veiga em Onde andará Dulce Veiga, por exemplo, foi inspirada na Odete Lara, que foi a maior atriz do cinema brasileiro dos anos 50, e abandonou tudo para se tornar budista e viver num sítio. [Nota: Dulce Veiga era justamente o nome da personagem vivida por Odete Lara no filme A estrela sobe, de Bruno Barreto, onde interpretava a canção Nada além, de Mário Lago e Custódio Mesquita, como a Dulce Veiga do livro.] E outras personagens do livro, como a Márcia Felácio, eu me inspirei naquelas meninas que tinham um grupo de rock chamado As Mercenárias. Mas com muita liberdade, misturando com outras pessoas. Já as histórias, elas brotam, Wil, é uma coisa muito estranha, difícil de descrever. Podem vir de uma coisa que você observou numa praça, numa rua, numa casa... Mas depende, em geral as histórias me vêm muito subitamente. Para contar uma história é preciso cercar a ideia; depois que a primeira frase vem limpa, as palavras vêm. Mas as imagens precisam primeiro passar pelo filtro das palavras. Atualmente eu estou trabalhando num projeto de um livro chamado Malditas fadas, com reescrituras para adultos daqueles contos de Andersen. [Nota: o conto Sapatinhos vermelhos, publicado no livro Os dragões não conhecem o paraíso, acabou sendo a única experiência, que eu saiba, que ele concretizou nesse sentido.] Mas ultimamente eu tenho evitado ao máximo escrever porque eu passo mal, me dá dores na coluna, me dá vômito, eu sinto um desconforto físico muito grande, então eu tento fugir disso. Acredito que isso tem a ver com o medo de não conseguir dar forma às histórias, de não conseguir mais criar.

 

 

Maitê Proença como Dulce Veiga no filme de Guilherme de Almeida Prado

 

-- O que você acha da literatura que é feita hoje no Brasil?

 

-- Olha, eu acho muito desamparada a literatura brasileira. Um dos trabalhos que eu faço é dirigir oficinas de criação literária por todo o Brasil, e por esse contato real com os jovens eu sei que existe gente jovem querendo escrever e escrevendo muito bem. Mas as editoras não abrem as portas. Eu acho que na atual sociedade de consumo tudo tem que ser vendável. Então se você pinta um quadro, não importa se o quadro é muito bom, importa mais se você for nas vernissages, fizer caras exóticas para os fotógrafos, aparecer na coluna social, ter o seu nome falado. Quando eu comecei a escrever eu achava que a crítica poderia me ajudar a compreender melhor o meu trabalho. Mas o que eu fui vendo, como escritor e como jornalista, é que é tudo sempre muito viciado, muito mau-caráter. Então elogia-se um livro porque o editor é amigo do escritor, ou comeu a mulher dele, é horrível isso, é muito humilhante. Quer dizer, o que eu vejo é uma super-valorização da superfície, da aparência, e não do trabalho, e isso é uma característica do nosso tempo muito lamentável.

 

 

 

"E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, no tão íntimo, mas tão íntimo, que de repente a palavra "nojo" não tem mais sentido? (...) O amor só acontece quando a gente aceita que também é bicho."

(Caio Fernando Abreu, trecho de Pela noite transformado em canção por Laura Finocchiaro como Amor Nojento)

 

 

Como não há vídeos das canções que Laura Finocchiaro musicou com base em textos de Caio, publico aqui outra canção dela, Link, em parceria com Leca Machado, disponível no cd Oi, o mesmo que contém as canções Necessidade e Amor nojento.

 

Escrito por will robinson às 05h02
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