Lost-in-space


04/03/2013


Um raio de esperança?

Os filmes:

 

OS MISERÁVEIS (Les Misérables - Reino Unido, 2012)

Roteiro: William Nicholson, Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg, Herbert Kretzmer; baseado no musical de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil; por sua vez baseado no romance de Victor Hugo

Canções: música de Claude-Michel Schönberg, letras em francês de Alain Boublil e Jean-Marc Natel, letras em inglês de Herbert Kretzmer e James Fenton

Produzido por Tim Bevan, Eric Fellner, Debra Hayward, Cameron Macintosh

Direção: Tom Hooper

 

 

A VIAGEM (Cloud Atlas - Alemanha, 2012)

Produzido por Grant Hill, Stefan Arndt, Lana Wachowski, Tom Tykwer, Andy Wachowski

Roteiro e direção: Lana Wachowski, Tom Tykwer, Andy Wachowski; baseado no romance de David Mitchell

 

 

O LADO BOM DA VIDA (Silver Linings Playbook - EUA, 2012)

Produzido por Bruce Cohen, Donna Gigliotti, Jonathan Gordon

Roteiro e direção de David O. Russell, baseado no romance de Matthew Quick

 

 

"This is the land I fought for liberty, now when we fight, we fight for bread... Here is the thing about equality, everyone's equal when they're dead."

(Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg, Herbert Kretzmer - Look Down)

 

 

Logo no começo de O lado bom da vida, o personagem Pat (Bradley Cooper), um professor recém-saído de uma instituição para se tratar de seu transtorno bipolar, resolve ler alguns dos clássicos da literatura americana que sua ex-mulher Nikki (Brea Bee) usa em suas aulas, e logo descobre que todos têm final trágico, terminando quase sempre com a morte dos protagonistas. Isso vai totalmente contra a filosofia que desenvolveu para lidar com sua condição: a de sempre procurar um raio de esperança (ou silver lining, como no título original) mesmo nas situações mais adversas. Seu interesse romântico no filme, a não menos problemática Tiffany (Jennifer Lawrence, no papel que lhe rendeu o Oscar) argumenta, numa carta que ela escreveu mas atribui a Nikki, que esses livros servem para ensinar aos alunos que a vida é mesmo difícil e assim prepará-los melhor para o que enfrentarão pela frente.

 

 

 

O romance de Victor Hugo no qual o musical Les Misérables é baseado não é exceção à regra: a vida é mesmo dura e os seres humanos não aprendem com os próprios erros. "Derrubamos um rei e agora temos outro rei", canta o garoto de rua Gavroche (o adorável Daniel Huttlestone), mostrando um discernimento e um senso crítico bastante incomum para alguém de sua idade, para emendar em seguida, na tradução da frase que uso aqui como epígrafe: "Essa é a terra que lutou por liberdade, agora lutamos pelo pão. Eis a verdade sobre a igualdade: só somos iguais quando morremos."

 

 

 

No filme A Viagem, quando o garoto e futuro escritor Javier Gomez (Brody Nicholas Lee) pergunta à jornalista Luisa Rey (Halle Berry) por que ela lê as cartas escritas no passado pelo pianista Robert Frobischer (Ben Wishaw) ao seu namorado Rufus Sixmith (James D'Arcy), nas quais o pianista por sua vez descreve seu profundo interesse pelo diário escrito num passado ainda mais longínquo pelo advogado Adam Ewing (Jim Sturgess) sobre sua amizade com o escravo fugitivo Autua (David Gyasi), a jornalista responde simplesmente: "Para tentar entender por que nós continuamos a cometer sempre os mesmos erros."

 

 

Essa frase resume pra mim o que é o filme A Viagem, aparentemente complexo e difícil em sua estrutura multi-narrativa que entrelaça seis histórias passadas em locais e épocas diferentes do passado, presente e futuro, mas que na verdade se revela muito simples em sua essência: a ideia de que todos nós, enquanto seres humanos, acabamos por cometer sempre os mesmos erros, não importando se vivemos em ambiente de extrema tecnologia ou numa idade da pedra pós-apocalíptica. A mesma "ordem natural" evocada pelos escravagistas do século XIX é retomada na Seul ultra-desenvolvida do século XXII, onde clones são produzidos em série com o único objetivo de servir aos que lhes são superiores. A exploração do ser humano pelo seu próprio semelhante é posteriormente reduzida a seu aspecto mais elementar: o canibalismo.

 

 

 

Curiosamente, embora desses três filmes citados o único que se passa na época atual (com exceção de uma das histórias de A Viagem) seja O lado bom da vida, sendo também o único dos três que dispensa efeitos especiais mirabolantes, cenários grandiosos e canções épicas para contar sua história, é paradoxalmente o mais fantasioso dos três. Não só na superficialidade com que retrata os distúrbios psiquiátricos de seus protagonistas: qualquer um que já tenha convivido com pessoas bipolares, depressivas, compulsivas ou obsessivas, ou já tenha sofrido na pele um desses problemas, sabe que os personagens de Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro e Chris Tucker são, na melhor das hipóteses, pálidas e romantizadas representações de pessoas que sofrem daqueles distúrbios. Em alguns momentos, o filme parece mostrar que basta uma conversa sincera e alguns tapinhas nas costas para que uma pessoa surtada decida tomar direitinho seus remédios. Mas como eu dizia, não é só essa a fantasia do filme: é principalmente sua insistência em justificar o título original com um bom e legítimo raio de esperança em seu final, tão feliz quanto inverossímil.

 

Enquanto isso, o trágico e operístico musical Les Misérables chega a doer na alma de tão real é o mundo de seus personagens. Ou você vive em um mundo onde Valjeans não vão para a prisão por roubar ninharias para sobreviver e saem da cadeia muito piores do que entraram, enquanto os ladrões que roubam milhões se mantêm alegremente no poder? Onde Javerts inflexíveis e incapazes de qualquer compaixão não seguem perseguindo e condenando aqueles que não respeitam seus rígidos princípios morais e legais? Onde jovens Fantines de ambos os sexos e todos os gêneros não acabam optando pela prostituição como última opção diante da rejeição da sociedade (como acontece todos os dias debaixo dos nossos narizes com a grande maioria das travestis e transexuais)? Onde senhores e senhoras Thénardier não sobrevivem explorando e enganando pessoas em situação de igual miséria, seguindo fielmente a filosofia de que "dog eats dog"? Onde jovens estudantes idealistas não continuam sacrificando suas próprias vidas (na Síria, no Oriente Médio, na primavera árabe) por uma causa que acaba se revelando inatingível, visto que a cada ditadura que é derrubada surge uma ainda pior para ocupar o lugar? E o único raio de esperança oferecido pelo filme chega a ser uma reunião dos fantasmas daqueles que morreram em vão entoando o hino "There is a life about to start when tomorrow comes!", ou seja, há uma vida para começar quando vier amanhã. O problema é que amanhã está condenado a ser sempre amanhã e nunca hoje.

 

 

 

Em A Viagem, o tal raio de esperança aparece na forma de um planeta distante onde a Terra é apenas uma estrela no céu. Mas para que esse texto não termine de maneira demasiado pessimista, e sim com um raio de esperança, termino com a citação de uma frase do ator Tom Hanks sobre o filme em que interpreta múltiplos personagens, resumindo a filosofia da obra: "Trata-se de um filme sobre a escolha entre fazer o mal e fazer o bem, e como essa escolha é o que determina não só nossas vidas, mas também as vidas de todos aqueles que nos cercam." E felizmente, ontem, hoje e amanhã sempre haverá aqueles que optam pelo bem.

 

O elenco de Les Misérables na apresentação do Oscar

 

Escrito por will robinson às 23h29
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