Lost-in-space


21/01/2013


O preço da sobrevivência

Filme: AS AVENTURAS DE PI

Título original: Life of Pi (EUA, 2012)

Roteiro: David Magee, baseado no livro de Yann Martel

Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark

Direção: Ang Lee

 

"Tu es responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé."

(Antoine de Saint-Exupéry - Le Petit Prince)

 

"I suppose in the end, the whole of life becomes an act of letting go, but what always hurts the most is not taking a moment to say goodbye."

(David Magee, Yann Martel - Life of Pi)

 

"Our lives are not our own, we are bound to others, past and present. And by each crime and every kindness, we birth our future."

(Andy Wachowski, Tom TykwerLana Wachowski, David Mitchell - Cloud Atlas)

 

 

Não, dessa vez não vou usar esse espaço para analisar o belíssimo filme de Ang Lee, elogiar sua caprichadíssima produção em 3-D, sua exuberante fotografia, suas imagens de tirar o fôlego. Tampouco vou entrar nas complexas discussões filosóficas que o filme propõe -- quem quiser se aprofundar nelas já tem inúmeros sites à disposição.

 

Vou apenas falar sobre a cena do filme que mais me marcou: quando depois de 227 dias à deriva, o barco em que o garoto Pi (Suraj Sharma) e o tigre Richard Parker sobreviveram a um naufrágio chega à costa do México. Enquanto o garoto se joga na areia e mal tem forças pra se mover, o tigre, ansioso por liberdade, se encaminha em direção à floresta. Pi ainda espera que o animal olhe pra trás e solte um rugido, como um sinal de adeus, mas nada disso acontece: o tigre apenas se embrenha na selva sem olhar pra trás. E Pi, refletindo sobre a cena quando adulto (interpretado então por Irrfan Khan), diz a frase que reproduzi acima no original: Embora toda a vida seja um exercício de se despedir, o que mais machuca é quando não se diz adeus.

 

Fiquei pensando em por que aquele animal que tem nome e sobrenome não foi capaz desse derradeiro gesto de carinho pelo garoto que o acompanhou em sua trajetória de sobrevivência durante tanto tempo e atende por um símbolo matemático. (Que fique claro que estou falando do ponto de vista metafórico que permeia todo o filme, não me venham com lições de biologia, por favor.) Talvez porque o tigre, focado basicamente em seu instinto de sobrevivência, não chega a sentir qualquer empatia ou necessidade de confortar o outro. Afinal, é mais fácil sobreviver na selva quando temos de cuidar exclusivamente de nós mesmos. E assim deixamos às vezes de oferecer àquele que está do lado um simples gesto de carinho, de amizade, de simpatia, de conforto, quando o outro está fragilizado. Não necessariamente por maldade ou egoísmo, mas simplesmente por estarmos tão concentrados em nossa própria sobrevivência que nem chegamos a perceber que o outro está fragilizado. E quando percebemos, ainda pensamos algo do tipo "Problema dele/a, não posso fazer nada mesmo, cada um tem que conviver com seus problemas, a vida é difícil para todos." Quantas vezes você já não ouviu, ou pensou, ou mesmo disse, variações dessa frase?

 

E assim vamos seguindo a vida. Sobrevivendo. Deve ser algo comum a quem tem nome e sobrenome.

 

Pi's LullabyBombay Jayashri & Mychael Danna

 

Escrito por will robinson às 02h06
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06/01/2013


Mudaria o Natal ou mudei eu?

6 de janeiro de 2013, primeiro ano depois do fim do mundo. Hoje se celebra segundo a tradição cristã o dia de reis, dia em que segundo a tradição os reis magos presentearam o recém-nascido Messias com ouro, incenso e mirra e em que alguns países é realizada a troca de presentes que entre nós é feita sempre no Natal. E isso não teria nenhuma importância a não ser o fato de eu estar usando esse pretexto para fazer uma reflexão um pouco atrasada sobre o significado do Natal -- já que hoje seria o dia de desmontar os enfeites natalinos.

 

 

"Mudaria o Natal ou mudei eu?" questionava-se Machado de Assis em seu famoso Soneto de Natal. Claro que o Natal para uma criança não tem comparação com a mesma data para um adulto. Independente das convicções religiosas de sua família, Natal para uma criança é um tempo mágico, tempo de acreditar que um velhinho de barbas brancas morador do Pólo Norte percorre o mundo todo em um trenó puxado por renas voadoras a distribuir presentes pelas chaminés. Quando essa criança se torna adulto e tem filhos, tenta transmitir a eles a mesma magia que encontrava nessa data quando criança -- e aí se justificam plenamente as árvores que imitam pinheiros cobertos de neve, bonecos de renas e duendes, Papais Noéis por todos os lados. Mas qual o sentido disso para alguém que não tem filhos?

 

 

Não vou questionar motivações religiosas aqui. Fé é algo individual que deve ser respeitado mesmo por quem não a tem, e não gosto nem um pouco da atitude de alguns ateus militantes que ridicularizam e debocham da fé alheia, da mesma forma que condeno aqueles que tentam impor sua fé a toda a humanidade. Mas o fato é que, embora tenha tido fases de acreditar em outras coisas, hoje sou um ser profundamente cético. E quando relatava a uma psicoterapeuta, há muitos anos, que começava a questionar minhas crenças no sobrenatural, a frase que ela usou foi: "Quando a gente cresce deixa de acreditar em Papai Noel, não é verdade?" Na hora fiquei um pouco ofendido por achar que ela estava equiparando crenças que se supõem sérias a uma lenda infantil, mas depois entendi que pelo menos no meu caso específico, ela estava coberta de razão. Sem nunca ter sido uma pessoa religiosa, eu apenas usava aquelas crenças como uma forma de escapar da realidade.

 

E o dilema se impõe: sem Papai Noel e sem Jesus Cristo, o que sobra para dar sentido ao Natal? A corrida frenética ao comércio? A obrigação de dar presentes a todo o mundo? A necessidade de se mostrar feliz e solidário só nessa época do ano? A hipocrisia de se desejar felicidades a quem nem se olha na cara durante o resto do ano? A tendência a se empanturrar de comida e bebida para afetar uma irreal felicidade?

 

 

Nesse ano o Natal foi bem diferente para mim. Com a casa de pernas pro ar devido a uma reforma inacabada, não houve árvore de Natal dessa vez. Sem condições de receber visitas, meu irmão fez o convite: por que não passar o natal em Juiz de Fora, com a família da minha cunhada? Convite aceito, fomos para lá, não sem antes sermos alertados: Nada de presentes, eles não têm essa tradição, assim como também dispensam árvores de Natal e penduricalhos mil. E assim fomos poupados da correria ao comércio, e nossas andanças pelo comércio de Juiz de Fora se resumiram a comprar doces típicos de Minas para trazer aos parentes e amigos -- e a nós mesmos também, claro, que ninguém é de ferro.

 

Não que não seja uma família católica, pelo menos de nome -- assim como a minha também era, só de nome. A única pessoa ali que era realmente religiosa era o sogro de meu irmão, que se prontificou a ir à missa no dia de Natal sozinho, e apenas teve a voluntária companhia de meu irmão, que é tão religioso quanto eu, para poupá-lo de percorrer sozinho as íngremes ladeiras do bairro onde mora. Mas de resto foi curtir sua fé sem sermões, sem recriminar os demais membros da família por não terem a mesma disposição, num total respeito pela liberdade individual. E o que vi nessa família foi simplesmente o prazer de estarem juntos, de trabalhar democraticamente -- quem gostava de cozinhar cozinhava, os demais se revezavam entre arrumar a mesa, lavar os pratos, buscar as coisas no supermercado. O prazer de se sentar à mesa para comer e jogar conversa fora, sem frescuras, sem troca de presentes, sem cânticos de Natal, sem tv ligada no especial da Xuxa, sem preces impostas -- apenas o prazer de estarem juntos. E ali descobri o verdadeiro espírito de Natal.

 

Escrito por will robinson às 07h14
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