Lost-in-space


22/10/2012


E estamos todos aí

Filme: E SE VIVÊSSEMOS TODOS JUNTOS?

Título original: Et si on vivait tous ensemble? (França, 2011)

Produção: Christophe Bruncher, Philippe Gompel, Aurélia Grossmann

Roteiro e direção: Stéphane Robelin

 

 

 

"Antes de mim vieram os velhos

Os jovens vieram depois de mim

E estamos todos aqui

No meio do caminho dessa vida

Vinda antes de nós

E estamos todos a sós

No meio do caminho dessa vida..."

(Adriana Calcanhotto, Velhos e Jovens)

 

O cinema francês não tem medo de lidar com questões tabu. E o melhor é que o faz sem pudores, mas também com extrema leveza. Daí o sucesso de um filme como Intocáveis, ainda em cartaz no cinema, que nos faz rir com a história real da amizade entre um milionário tetraplégico e um imigrante africano, ex-presidiário.

 

 

 

Assim como Intocáveis, também este E se vivêssemos todos juntos? nos faz rir de situações que na vida real talvez nos fizessem chorar. Isso porque trata de um tema que a todos nós afeta ou afetará, em algum momento da vida: a velhice e todas as suas consequências. Todos nós ficaremos velhos, um dia (isso, claro, se não partirmos dessa vida antes disso). Mas mais do que isso, todos nós convivemos com nossos avós e mais tarde com nossos pais idosos, aprendemos às vezes de forma bastante dura a lidar com as limitações que a idade traz, e aos trancos e barrancos vamos vendo quem um dia representou a segurança e a estabilidade em nossas vidas passando a depender de nós, filhos, que sempre fomos os carentes de proteção, e de repente nos vemos na posição de cuidadores e responsáveis por nossos próprios pais sem nunca termos de fato nos preparado para isso.

 

Curiosamente os filhos são os grandes ausentes do filme francês, e quando aparecem é para representar a repressão, aqueles que a título de proteger os pais acabam por restringi-los a uma vida de regras e limitações, sem perceber que o que eles mais querem é aproveitar ao máximo o pouco de vida que ainda lhes resta. Como diz um dos personagens ao filho: "Seu pai vai morrer e nós dois sabemos disso. Mas enquanto isso não acontece, me deixe curtir a vida!"

 

Vamos a um breve resumo da história. Os protagonistas são cinco amigos, todos passados dos setenta anos: os casais formados por Jeanne (a inigualável Jane Fonda, ainda uma mulher belíssima aos 74 anos) e Albert (Pierre Richard), e Jean (Guy Bedos) e Annie (Geraldine Chaplin), e ainda o solteirão convicto Claude (Claude Rich). Todos têm uma vida independente e financeiramente estável, mas os problemas de saúde enfrentados por cada um deles, alguns mais sérios que outros, acabam fazendo com que os respectivos filhos passem a pensar na opção de interná-los em asilos. Para escapar a essa sombria alternativa, resolvem então morar todos juntos, quando então passam a enfrentar os problemas criados pela convivência entre pessoas diferentes e cheias de manias, mas entre os quais reina um amor tão grande que saberá passar por cima até de eventuais descobertas de mentiras e infidelidades mantidas em segredo há décadas. A eles vem se juntar um jovem estudante que trabalha em uma tese sobre a velhice, o alemão Dirk (Daniel Brühl), o qual de certa forma estabelece uma ponte entre o espectador e aquele grupo de amigos, representando o estranhamento necessário para que penetremos naquele universo tão particular de pessoas unidas pelo afeto há tanto tempo que não precisam de muitas palavras para se entenderem.

 

A doença, a dor, a saudade dos filhos e netos, o medo da senilidade e do esquecimento, a proximidade da morte e mesmo o sexo na terceira idade são alguns dos vários temas tratados por esse filme com muita leveza e muito humor, sem nunca resvalar para a pieguice e o sentimentalismo, e o que é mais importante -- sem paternalizar seus personagens, sem tratá-los como um bando de velhinhos excêntricos, e sim como seres humanos complexos em suas contradições, angústias e sonhos, tratados com o mesmo respeito com que deveríamos tratar nossos idosos. E com o mesmo respeito com que esperamos ser tratados quando chegar a nossa vez de sermos considerados "terceira idade".

 

 

 

"E estamos todos no meio

Quem chegou e quem faz tempo que veio

Ninguém no início ou no fim

Antes de mim

Vieram os velhos

Os jovens vieram depois de mim

E estamos todos aí"

(Adriana Calcanhotto)

 

 

Escrito por will robinson às 04h17
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