Lost-in-space


04/03/2012


Adapte-se ou morra! (Parte 1)

Os filmes:

 

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO (Moneyball, EUA, 2011)

Roteiro: Steven Zaillian e Aaron Sorkin, história de Stan Chervin baseada no livro Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game de Michael Lewis

Produção: Michael De Luca, Rachael Horovitz, Brad Pitt

Direção: Bennett Miller

 

 

A DAMA DE FERRO (The Iron Lady, Reino Unido, 2011)

Roteiro: Abi Morgan

Produção: Damian Jones

Direção: Phyllida Lloyd

 

 

OS DESCENDENTES (The Descendants, EUA, 2011)

Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash, baseado no livro de Kaui Hart Hemmings

Produção: Jim Burke, Alexander Payne, Jim Taylor

Direção: Alexander Payne

 

 

O ARTISTA (The Artist, França, 2011)

Produção: Thomas Langmann, Emmanuel Montamat

Roteiro e direção: Michel Hazanavicius

 

 

A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo, EUA, 2011)

Roteiro: John Logan, baseado no livro A Invenção de Hugo Cabret (The Invention of Hugo Cabret), de Brian Selznick

Produção: Johnny Depp, Tim Headington, Graham King, Martin Scorsese

Direção: Martin Scorsese

 

 

"Adapt or die!"

Brad Pitt como Billy Beane em O homem que mudou o jogo

 

Billy Beane, Margaret Thatcher e Georges Méliès são pessoas que realmente existem ou existiram. Matt King, George Valentin e Hugo Cabret são personagens fictícios. Mas todos eles têm algo em comum: todos precisam adaptar-se a uma nova realidade, muito diferente daquela a que estavam acostumados.

 

 

 

Brad Pitt e Kerris Dorsey em O homem que mudou o jogo

 

 

Billy Beane (Brad Pitt) foi o primeiro "general manager" (algo como o presidente de um time) de um time americano de beisebol a usar uma moderna forma de analisar os jogadores de acordo com determinadas estatísticas e escalá-los para os jogos por padrões matemáticos. Na verdade o filme O homem que mudou o jogo conta como Beane foi obrigado a recorrer a um jovem pioneiro nesse tipo de estatística (interpretado por Jonah Hill) devido à incapacidade financeira de seu time, os Oakland Athletics, de arcar com os custos dos jogadores mais talentosos. A estratégia faz com que seu time ganhe vários jogos em sequência, mas só depois de enfrentar ferrenha oposição tanto do treinador (Philip Seymour Hoffman) quanto de todos os seus auxiliares. É a eles que ele dirige a frase citada acima, "Adapte-se ou morra", querendo dizer com isso que aqueles que permanecessem presos a um método a seu ver ultrapassado de jogar seriam logo superados. E é o que acontece: logo todos os outros times passam a usar o mesmo método introduzido por ele, pomposamente chamado "sabermetrics", e assim ironicamente, seu próprio time volta a ocupar a lanterninha dos campeonatos. (Observação: tentei contar essa história da melhor forma que consegui, mas se mesmo assim você leitor não entendeu nada, isso se deve à profunda repugnância que tenho tanto por esportes quanto por números, e também à minha absoluta ignorância em relação a beisebol, o que sinceramente fez com que assistir esse filme fosse de certa forma um martírio.)

 

 

 

Jim Broadbent e Meryl Streep como Sr. e Sra. Thatcher em A dama de ferro

 

 

 

O drama de Margaret Thatcher (interpretada em A Dama de Ferro por Alexandra Roach quando jovem e por uma absolutamente magistral Meryl Streep tanto na idade madura quanto na velhice) é bem diferente. Tendo sido primeira-ministra do Reino Unido por onze anos (1979 a 1990), foi a mulher mais poderosa de seu tempo e uma das pessoas que marcaram o século XX, a ponto de seu sobrenome virar verbete no dicionário, sendo thatcherismo a definição de sua forma particular e autoritária de implementar o liberalismo econômico em seu país. Mas quando o filme começa encontramos a outrora Dama de Ferro com a idade avançada, frágil e alquebrada, lutando contra o princípio da demência e tentando juntar os caquinhos de sua memória para ver se fazem algum sentido. Dialogando com a alucinação do marido já falecido (Jim Broadbent), Thatcher tenta a todo custo esconder dos que a cercam que seu estado mental está em franco declínio, e isso relativiza bastante, naturalmente, a natureza das lembranças que aparecem em flashback. Os maniqueístas que enxergam a realidade em preto e branco tentaram denegrir o filme de Phyllida Law, desqualificando-o como superficial e benevolente com a polêmica personalidade que retrata. Mas o filme tanto não é benevolente, mostrando de forma bastante clara como o autoritarismo e a arrogância da ex-chefe de governo britânica levou-a a ser defenestrada por seus próprios correligionários, quanto não é superficial, pois se prefere mostrar a personalidade política como um ser humano dotado de virtudes e fraquezas, ao invés de demonizá-la como gostariam os detratores, aprofunda e humaniza a personagem, ao ponto de nos apiedarmos por seu estado atual por, no fundo, temermos ter o mesmo destino.

 

 

 

Meryl Streep na pele de lady Thatcher já octogenária

 

 

Escrito por will robinson às 20h39
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Adapte-se ou morra! (parte 2)

George Clooney, Shailene Woodley e Amara Miller são Os Descendentes

 

"Paradise? Paradise can go fuck itself." A frase, que dispensa tradução, é uma das primeiras coisas que ouvimos do milionário Matt King (George Clooney) em Os Descendentes. Ele se refere ao Havaí, onde vive, considerado por muitos o paraíso na terra, mas onde também se sofre, se fica doente e se morre. E é com a iminente morte da esposa (Patricia Hastie), em coma após um acidente, que ele tem de se defrontar. Ao mesmo tempo em que tem de tomar conta sozinho das duas filhas, a adolescente rebelde Alexandra (Shailene Woodley) e a desbocada menina Scottie (Amara Miller), ainda tem de lidar com uma importante decisão involvendo uma área de praia paradisíaca herdada de seus ancestrais e prestes a ser vendida, e em meio a um turbilhão emocional ainda descobre que sua mulher o estava traindo com um corretor de imóveis (Matthew Lillard) casado e ambicioso. Clooney prova mais uma vez seu talento ao dotar seu personagem de muitas camadas, retratando um homem confuso e perdido, sem poder acertar as contas com a mulher que se tornou um vegetal, tendo de lidar com o sogro rancoroso e a sogra demente, descobrindo que os amigos do casal eram cúmplices do adultério e ainda tendo que aparecer aos outros como alguém em pleno domínio da situação. Embora a belíssima trilha sonora do filme seja composta quase que totalmente por típica música havaiana, a canção que nos ocorre durante o filme é um clássico brasileiro de Erasmo Carlos: "Sempre me dizem quando fico sério: Ele é um homem e entende tudo! Por dentro com a alma atarantada, sou uma criança, não entendo nada." E não somos todos?

 

 

Jean Dujardin e o cachorro Uggie, que rouba todas as cenas em que aparece em O Artista

 

O conflito do personagem fictício George Valentin (Jean Dujardin) em O Artista é o mesmo vivido na vida real por vários astros do cinema mudo que não se adaptaram à passagem para o cinema sonoro. O fato de O Artista homenagear o cinema mudo sendo ele mesmo um filme mudo e preto-e-branco, é ao mesmo tempo seu maior trunfo e sua grande limitação. O filme é sem dúvida encantador em seu anacronismo proposital, é uma produção impecável, belamente fotografado e interpretado, mas depois que a novidade se esgota e passamos a prestar atenção na história, um certo tédio se instala. Pois a história contada nesse filme é basicamente a mesma das várias versões de Nasce uma Estrela: atriz em ascensão (Bérénice Bejo) que se apaixona por astro em decadência. Sem poder recorrer aos diálogos, além das breves "falas" contidas nas legendas, seus personagens se revelam um tanto rasos e desinteressantes. Além disso Dujardin baseia sua caracterização principalmente no Gene Kelly de Cantando na Chuva, filme que retratava o mesmo período de transição vivido pelo cinema de forma muito mais eficiente.

 

 

Asa Butterfield e Chloë Grace Moretz se encantam com o cinema em A Invenção de Hugo Cabret

 

 

 

Ao contrário, o mestre Martin Scorsese, em seu encantador A Invenção de Hugo Cabret, recorre a todos os recursos que a moderna tecnologia oferece e dá uma aula de como usar o 3D de forma criativa e eficiente, sem a gratuidade dos efeitos que os filmes do gênero vinham ostentando, e tudo isso para homenagear os primórdios do cinema, na pessoa de seu primeiro grande criador, o francês Georges Méliès, interpretado por Ben Kingsley.

 

 

Asa Butterfield e Ben Kingsley

 

O garoto Hugo Cabret (interpretado com sensibilidade por Asa Butterfield) é um órfão que após a morte do pai (Jude Law) é levado a viver nos túneis por trás dos relógios da Estação Montparnasse, em Paris, por seu tio alcoólatra (Ray Winstone). Após o desaparecimento do tio, o garoto cuida sozinho dos relógios da estação, tenta fugir do inspetor trapalhão (Sacha Baron Cohen), vive de pequenos furtos e ainda tenta consertar um autômato que seu pai resgatou de um museu antes de morrer, acreditando que a máquina talvez lhe traga uma mensagem de seu pai. Para isso ele rouba peças de um vendedor de brinquedos da estação, fica amigo da afilhada dele, uma garota também órfã (Chloë Grace Moretz) e juntos acabam desvendendo o mistério que une o autômato ao carrancudo vendedor de brinquedos.

 

 

Asa Butterfield e Jude Law com o autômato

 

 

Há vários temas presentes nesse filme que muitos apressados podem achar destinado apenas ao público infanto-juvenil. Além dos principais personagens serem órfãos e terem de lidar com a falta de referências tão importantes para uma criança quanto os pais (até o vilão se revela órfão a certa altura), há também o questionamento constante dos pequenos protagonistas sobre a função que teriam a desempenhar nessa vida. Será que, assim como o autômato que sem funcionar perde completamente sua utilidade e seu encanto, também os seres humanos precisariam ser "consertados" para poder cumprir sua função no mundo?

 

Talvez uma possível resposta a essa pergunta esteja naquele primeiro filme que comentei aqui, O homem que mudou o jogo. Pois embora eu tenha dito lá em cima que foi um martírio assisti-lo, o fato é que há algo de inquietante em sua conclusão. Acontece que a filha adolescente do protagonista (Kerris Dorsey) canta e toca violão, e a certa altura do filme ela interpreta para um pai babão uma canção da cantora australiana Lenka, chamada The Show, e num momento em que o pai precisa tomar uma decisão que pode mudar sua vida ele coloca pra tocar no carro o cd que ela gravou pra ele. Só que na gravação a garota muda a letra da música e em vez de cantar "I want my money back, just enjoy the show", como no original, ela diz "You're such a loser, dad, such a loser, just enjoy the show". Você é um perdedor, pai, apenas aproveite o show. E talvez essa seja a lição mais valiosa a se tirar de todos esses personagens complicados e fascinantes: mais importante que ganhar ou perder, é aproveitar a jornada.

 

 

Lenka - The Show (Jason Reeves, Lena Kripac)

 Para ouvir a versão exibida no final do filme, na voz da atriz mirim Kerris Dorsey e com a letra ligeiramente alterada, clique aqui.

 

Escrito por will robinson às 19h44
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