Lost-in-space


07/01/2012


Até a disputa pelo poder corrompe absolutamente

O filme: Tudo pelo poder

Título original: The ides of March (EUA, 2011)

Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon, baseado na peça Farragut North, de Beau Willimon

Produção: George Clooney, Grant Heslov, Brian Oliver

Direção: George Clooney

 

 

 

O outro filme: Segredos do Poder

Título original: Primary Colors (EUA, 1998)

Roteiro: Elaine May, baseado no romance de Joe Klein

Produção e direção: Mike Nichols

 

 

 

Tudo pelo poder, a começar pelo nome brasileiro, é em tudo semelhante a outro filme retratando os bastidores de uma campanha presidencial americana: Segredos do poder, de 1998. No filme de Mike Nichols, John Travolta interpretava um candidato baseado sem grandes disfarces em Bill Clinton, enquanto Emma Thompson representava sua mulher, baseada na atual secretária de Estado americana Hillary Clinton; e o inglês Adrian Lester fazia o jovem idealista que trabalhava na campanha por acreditar no candidato e depois vinha a se decepcionar com ele. No filme de George Clooney, o próprio diretor faz o papel do governador Mike Morris, pré-candidato do Partido Democrata, e Ryan Gosling é um dos assessores de sua campanha. Não faltou quem associasse o personagem de Clooney a Barack Obama, ainda mais que Clooney é um democrata convicto e participou ativamente da campanha vitoriosa de Obama à presidência. Mas a peça em que o filme se baseia foi escrita tendo em mente a campanha nas primárias do então governador de Vermont, Howard Dean, em 2004, o qual acabou perdendo a indicação do partido Democrata para o senador John Kerry, o qual por sua vez foi derrotado na eleição por George W. Bush.

 

 

Adrian Lester e John Travolta em Segredos do Poder

 

Uma rápida explicação para quem não entende muito de política é necessária para o bom entendimento do filme. Nos Estados Unidos há apenas dois partidos com representação no Congresso: o Republicano, mais conservador, ao qual pertence o ex-presidente George W. Bush, e o Democrata, mais liberal, de Obama e Clinton. De 4 em 4 anos, cada um dos partidos passa por um complicado e complexo sistema de primárias nos Estados americanos, para que cada um dos Estados se decida por um dos pré-candidatos. Basicamente, aquele que tiver o maior apoio se torna o candidato do partido a presidente. Atualmente, o presidente Barack Obama já foi declarado candidato à reeleição este ano, e o Partido Republicano está em pleno processo de primárias, como as que são retratadas em Tudo pelo poder.

 

 

George Clooney e Ryan Gosling em Tudo pelo poder

 

A maior diferença entre o filme atual e o anterior é que em Segredos do Poder o jovem idealista se decepciona com seu candidato mas preserva sua dignidade, e em Tudo pelo poder o personagem de Ryan Gosling, ao descobrir os podres de seu candidato, acaba se rendendo à cínica constatação de que os fins justificam os meios -- ou seja, de que a fim de chegar ao poder e assim colocar em prática seus ideais, é preciso sujar as mãos no meio do caminho, ainda que isso venha a ferir de morte a parte mais fraca na história. E é aí que o filme, à primeira vista tão enraizado nas práticas políticas americanas, se torna universal -- e não é à toa que seu título original, "Os idos de março", é uma citação shakesperiana que remete ao assassinato de Júlio César por um de seus mais próximos aliados.

 

Evan Rachel Wood e Ryan Gosling em Tudo pelo poder

 

O papel que o autor destas linhas teve no partido que atualmente ocupa o poder em nosso país é irrelevante comparado ao dos personagens de ambos os filmes -- fui apenas um simpatizante que teve sua fase de militância e que chegou a trabalhar ativamente numa campanha eleitoral de um político que acabou se tornando a face mais nefasta do partido que prometia ser diferente de todos os outros e terminou se revelando igual a todos os outros nos meios que usou para atingir seus fins. (Dando nome aos bois: estou me referindo ao ex-ministro José Dirceu). Se "o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente", como disse Lord Acton, o que vemos hoje em dia é que a simples disputa pelo poder já corrompe absolutamente.

 

Mas para terminar esse texto sem o travo amargo que o filme de George Clooney deixa em seu final, fica uma esperança: a de que os movimentos espontâneos de mobilização popular em todo o mundo que levaram a revista Time a definir a figura do "manifestante" como o homem do ano de 2011, representem uma nova forma de fazer política, que não seja tão hipócrita quanto aquela que é feita pelos políticos profissionais.

 

 

 

Escrito por will robinson às 23h44
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