Lost-in-space


27/11/2011


A pele, o corpo, a mente, o sexo... dá pra separar?

Filme: A PELE QUE HABITO

Título original em espanhol: La piel que habito (Espanha, 2011)

Roteiro: Pedro Almodóvar, baseado no livro Tarântula (Mygale), de Thierry Jonquet

Produção: Agustín Almodóvar e Esther García

Direção: Pedro Almodóvar

 

 

 

Tenho visto e lido muitas bobagens sobre o filme A pele que habito, o mais recente daquele que é na minha opinião o maior cineasta vivo, o espanhol Pedro Almodóvar. A mais frequente é de que este seria um Almodóvar atípico, completamente diferente de tudo o que ele já fez. Outra é de que o filme é frio, cerebral demais e sem o calor e o melodrama de seus filmes anteriores.

 

Na verdade todos os temas presentes neste filme são temas recorrentes na obra de Almodóvar. Aqui temos uma pessoa sequestrada e mantida em cativeiro por seu algoz, como em Ata-me, com inclusive o mesmo protagonista, Antonio Banderas. Temos o tema da mudança de sexo, como em Tudo sobre minha mãe. Há a rivalidade entre irmãos, e a troca de identidades, como em Má Educação. Há a submissão de corpos impotentes diante do desejo alheio, como em Fale com Ela. E sobretudo há o eterno e recorrente tema do desejo e de seus insondáveis desígnios, como em toda a filmografia do diretor.

 

 

 

Também esteticamente não se notam diferenças tão gritantes. Na verdade a estética do filme me lembrou muito Fale com Ela, na minha opinião a obra-prima do diretor. Em ambos há a aproximação entre diferentes artes, nesse caso as artes plásticas entrando no lugar da dança no outro filme. Nada mais natural, afinal o protagonista é um cirurgião plástico, em busca da criação de um corpo perfeito e de uma pele invulnerável, um esteta obcecado pela busca da beleza e da perfeição, e não é de se estranhar que sua casa seja repleta de belíssimas obras de arte -- e a beleza dos quadros se reflete muitas vezes na posição dos atores em cena, como se estivessem posando para um artista (e não estão?). Mas também o uso da música é semelhante. Se em Fale com Ela Caetano Veloso marcava presença cantando em espanhol, aqui a cantora espanhola Buika aparece cantando uma canção que já havíamos ouvido anteriormente em português no próprio filme, e que terá importância fundamental no desenrolar da história. (A canção é Pelo amor de amar, de José Toledo e Jean Manzon, e gravada por Ellen de Lima nos anos 50. Escute a gravação original aqui.) Aliás, o Brasil é uma presença constante nesse filme, embora não de forma explícita.

 

 

Antonio Banderas e Elena Anaya, ambos impecáveis

 

É difícil falar da história sem entregar detalhes que podem estragar um pouco as surpresas que o filme reserva -- eu mesmo, embora não tivesse lido muitas críticas sobre o filme antes de vê-lo, li o suficiente para adivinhar o grande segredo muito antes da revelação. Mas a verdade é que A pele que habito, como toda obra de arte que se espera de um grande artista como Almodóvar, não se esgota nas surpresas que o roteiro reserva para o espectador. É verdade que dessa vez ele escolheu trabalhar na chave de um filme de suspense, embora o humor esteja lá presente o tempo todo, muito mais discreto, no entanto, que em alguns de seus filmes anteriores. Mas o suspense é apenas o meio, não o fim. Os segredos são a cereja do bolo, não a essência do filme. O que importa mesmo é o mergulho profundo na alma de seus personagens, os quais podem parecer à primeira vista caricaturas grotescas e monstruosas de seres humanos, mas que não passam de retratos, vistos com lente de aumento, do monstro que habita em cada um de nós. Dentro de nossa pele.

 

Buika interpretando Por el amor de amar (Pelo amor de amar), de José Toledo e Jean Manzon

 

Escrito por will robinson às 04h26
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03/11/2011


Por um sentido na vida

A peça: OS ALTRUÍSTAS

Título original em inglês: The Altruists

Texto: Nicky Silver

Tradução: Érica de Almeida Rego Migon e Úrsula de Almeida Rego Migon

Elenco: Mariana Ximenes, Kiko Mascarenhas, Jonathan Haagensen, Miguel Thiré e Stella Rabello

Produção: Mariana Ximenes, Francisco Accioly e Roberto Vitorino

Direção e adaptação: Guilherme Weber

 

O filme: A PARTIDA

Título original em japonês: Okuribito (Japão, 2008)

Roteiro: Kundô Koyama, baseado no livro Nkanfu Nikki, de Aoki Shinmon

Produção: Toshiaki Nakazawa, Ichirô Nobukuni, Toshihisa Watai

Direção: Yôjirô Takita

 

O outro filme: MINHAS TARDES COM MARGUERITTE

Título original em francês: La tête en friche (França, 2010)

Roteiro: Jean Becker e Jean-Loup Dabadie, baseado no livro de Marie-Sabine Roger

Produção: Louis Becker

Direção: Jean Becker

 

"O Tim fez tudo o que podia fazer na vida. Comeu as mulheres que queria, usou o que quis, fez músicas maravilhosas, conheceu gente bacana, mas nunca esteve realmente feliz. Sempre achava que queriam roubar a mulher, o guitarrista, os cachorros... Acho que o único ano que ele foi realmente feliz foi quando frequentou a igreja [a doutrina Cultura Racional]. Não bebia, não cheirava, perdeu 20 kg. Musicalmente, foi a melhor fase de sua carreira. (...) É como o cara que se torna evangélico: encontrou um sentido pra vida."

Nelson Motta em entrevista a Paulo Lima, falando sobre Tim Maia

 

Qual é mesmo o sentido da vida? Eis a pergunta que tem mobilizado filósofos, escritores, poetas, artistas, psicólogos, teólogos, desde que o ser humano adquiriu consciência de sua própria existência -- e jamais ninguém chegou a qualquer conclusão definitiva sobre o tema.

 

 

 

Em sua peça Os Altruístas, o americano Nicky Silver retrata um grupo de pessoas que parecem procurar um sentido em suas existências através de um suposto altruísmo. Segundo a Wikipédia, "Altruísmo é um tipo de comportamento encontrado nos seres humanos e outros seres vivos, em que as ações de um indivíduo beneficiam outro trazendo, algumas vezes, até mesmo algum tipo de prejuízo para o próprio." Vejamos: a protagonista do espetáculo é uma atriz de novelas, Sydney (vivida com brilhantismo por Mariana Ximenes), a qual acredita que seu trabalho equivale ao de um assistente social, uma vez que ela leva conforto às vidas solitárias e tediosas das pessoas que acompanham sua novela açuçarada. Mas não se sabe se é realmente por sentir uma vontade maior de ajudar o próximo ou simplesmente por amor ao namorado, Tony (Miguel Thiré), se é que é possível falar em amor no universo niilista de Nicky Silver, Sydney usa o dinheiro que ganha como estrela de televisão para sustentar o grupo de ativistas ao qual pertence o namorado. Ativistas que lutam por uma causa, seja ela qual for, ao ponto da ativista Cybil (Stella Rabello), uma "lésbica política" que vive com uma mulher mas só se interessa sexualmente por homens, não ter ideia de contra o que vão protestar na passeata agendada para a tarde do dia em que se passa a história.

 

Já o irmão de Sydney, Ronald (o igualmente ótimo Kiko Mascarenhas, que atua o tempo todo vestindo uma camisola feminina), é realmente um assistente social, e leva o trabalho tão a sério que se envolve sexualmente com os desprivilegiados que deveria ajudar. No momento em que começa a história ele está perdidamente apaixonado por um michê com quem passou a noite, o simplório Lance (Jonathan Haagensen), o qual, talvez devido à total falta de ambição intelectual, é o único personagem a ser tratado com alguma simpatia pelo autor, e não por acaso será o primeiro a ser sacrificado pelos demais "altruístas" no momento em que a ação praticada por um deles ameaça causar algum prejuízo concreto aos interesses do grupo.

 

 

 

Por trás do cinismo cruel com que Nicky Silver retrata seus personagens, é possível perceber neles uma ânsia por achar algum sentido para justificar suas existências. O mais cruel nesses personagens é justamente a sinceridade com que parecem justificar suas ações arbitrárias, acreditando que estão realmente agindo para melhorar o mundo em que vivem.

 

 

 

Por falar em falta de ambição intelectual, será que a ignorância pode ser, paradoxalmente, uma proteção contra a depressão que acomete aqueles que pensam demais? Essa parece ser a questão que motivou o diretor Jean Becker a realizar Minhas tardes com Marqueritte, cujo nome original, La Tête en Friche, significa justamente algo como "cabeça vazia". Refere-se a Germain (Gérard Depardieu, magistral como sempre), um homem simples, mas não simplório, morador de uma cidadezinha do interior da França. Sem profissão definida, ele sobrevive de pequenos bicos e trabalhos braçais, vive num trailer no quintal da casa de sua mãe (vivida por Claire Maurier e nos flashbacks, quando jovem, por Anne Le Guernec), com quem tem uma relação difícil, cultiva legumes em sua horta a fim de aumentar os rendimentos e namora a motorista de ônibus Annette (Sophie Guillemin). Provavelmente disléxico, era ridicularizado na escola por não conseguir ler direito e se sentia rejeitado pela mãe, que não demonstrava qualquer carinho por ele. Sem muita auto-estima, sofrendo gozações até dos amigos por sua ignorância e falta de tato, é no entanto um homem profundamente sensível e carente, que sempre arruma um tempinho para dar comida aos pombos numa pracinha. E é aí que conhece Margueritte (Gisèle Casadesus), uma senhora idosa e solitária que como ele gosta de observar os pombos e dar-lhes apelidos conforme suas características individuais (sim, pombos têm personalidades distintas, sim senhor).

 

 

 

Margueritte (com dois Ts, como ela faz questão de frisar), que com o decorrer da história descobriremos tratar-se de uma médica aposentada que dedicou a vida à carreira e a ajudar os desvalidos e por isso não constituiu família, tem nos livros sua grande companhia. Começa a ler em voz alta A Peste, de Albert Camus, para Germain, e este tanto se encanta com a experiência que passa a adotar o hábito diário de ler com sua amiga, pois como ela lhe explica ele é tão leitor quanto ela, embora esteja apenas ouvindo. Com o tempo um novo mundo se abre para o rapaz, trazendo-lhe uma nova visão da vida e de si mesmo, embora nem sempre ele goste das coisas que começa a entender -- nós que pensamos demais sabemos o quanto isso pode ser doloroso às vezes.

 

 

 

Assim como muitos dos problemas de Germain se originam na falta de amor por parte da mãe inconsequente e de um pai que nunca conheceu, também o músico Daigo (Masahiro Motoki), protagonista de A Partida, se ressente da ausência do pai, que o abandonou quando tinha apenas seis anos, e se sente culpado por não ter estado perto da mãe quando ela faleceu. Quando seu sonho de tocar violoncelo numa grande orquestra se despedaça, Daigo e sua esposa, Mika (Ryoko Hirosue), mudam-se para a casa que foi de sua mãe, no interior. Procurando emprego, ele responde a um anúncio sem saber direito do que se trata e acaba trabalhando para Ikuei Sasaki (Tsutomu Yamazaki), um homem que se especializou em preparar corpos para velório. Mas não se trata apenas de lavar, vestir e maquiar um corpo para que fique apresentável para sua família, e sim de fazer tudo isso na presença da família, de forma respeitosa e ritualística, de maneira que a família e os amigos do falecido possam dar-lhe o último adeus e guardar uma última imagem agradável de seu ente querido. Tal ritual resulta em cenas poeticamente intensas e emocionantes, onde não há espaço para qualquer traço de morbidez. Uma das cenas mais impactantes é quando o pai de um adolescente transexual que cometeu suicídio vem agradecer chorando aos profissionais que a pedido da mãe vestiram e maquiaram o corpo com vestes femininas, dizendo que nunca havia aceitado o filho como transgênero, mas ao ver o sorriso no corpo inerte reconheceu o sorriso daquele que seria sempre seu filho, independente de como estava vestido.

 

(E aqui abro um parênteses para contar uma história pessoal. Quando meu pai faleceu, depois de longa e penosa enfermidade, não houve velório, como era seu desejo. Mas ficamos eu, minha mãe, meu irmão, minha cunhada e minha tia a noite toda no hospital, numa espécie de velório sem corpo, esperando para que pudéssemos vê-lo pela última vez antes que o caixão fosse fechado. E ao vê-lo enfim, barbeado, maquiado, vestido, cercado de flores e com um semblante sereno, pudemos todos guardar dele uma última lembrança muito diferente do semblante abatido e sofrido que ele demonstrava em seus últimos dias de vida. E por ter visto esse filme depois de ter tido essa experiência é que pude entendê-lo em toda a sua plenitude.)

 

O curioso é que ao trabalhar com a morte, um trabalho que provoca repulsa em seus amigos e até mesmo em sua esposa, é que Daigo redescobre o gosto de viver e volta a tocar seu violoncelo apenas por prazer, sem ter a necessidade do aplauso de um público. Encontrou um sentido para a sua vida, assim como Germain, que encontrou o seu não só no conhecimento mas também no amor maternal que não teve de sua própria mãe e encontrou na amiga idosa. E não é por acaso que em ambos os filmes, o francês e o japonês, os protagonistas se vejam na perspectiva de serem pais justamente no momento em que perdem o genitor que lhes causou tanto sofrimento e descobrem, para sua imensa surpresa, que afinal, mesmo de um jeito tortuoso e obscuro, foram amados.

 

 

 

E quem sabe o sentido da vida não seja esse, justamente? Ou, como tão bem definiram Lennon e McCartney,

 

"And in the end the love you take is equal to the love you make."

 

The Beatles, The End (John Lennon, Paul McCartney)

 

Escrito por will robinson às 01h55
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