Lost-in-space


18/07/2011


Em defesa do entendimento

A peça: Doze homens e uma sentença

Título original em inglês: Twelve angry men

Autor: Reginald Rose

Tradução: Ivo Barroso

Elenco: Norival Rizzo, ZéCarlos Machado, Oswaldo Ávila (substituindo o recém-falecido José Renato), Oswaldo Mendes, Gustavo Trestine, Riba Carlovich, Haroldo Ferrary, Ricardo Dantas, Brian Penido, Augusto César, Fernando Medeiros, Ivo Müller e Adriano Bedim

Direção: Eduardo Tolentino de Araújo

 

 

 

 

Doze homens e uma sentença é um texto que deveria ser matéria obrigatória nas escolas brasileiras, seja como texto para ser lido, seja em uma de suas versões filmadas (foi feito para o cinema em 1957 com Henry Fonda e direção de Sidney Lumet, a partir de um roteiro de televisão de Reginald Rose, e refeito para a televisão americana em 1997, com Jack Lemmon e George C. Scott), ou visto no teatro como nessa excelente montagem em cartaz em São Paulo somente até o final de julho. Por que digo isso? Por que estamos vivendo em época tão conturbada, com tantas demonstrações de preconceito e intolerância sendo confundidas com liberdade de expressão, intolerância essa que vem se manifestando desde cedo entre crianças e adolescentes em forma de bullying, que algo precisa ser feito urgentemente para que voltemos a nos comportar como seres civilizados.

 

A peça se passa em tempo real, mostrando a reunião de doze jurados, todos homens e brancos (pois se passa nos machistas e racistas Estados Unidos dos anos 50), que precisam decidir se um adolescente acusado de matar o próprio pai é culpado ou inocente. Pela lei a decisão deve ser unânime, e onze dos jurados já chegam à sala de discussão com sua opinião formada e convictos da culpa do rapaz, ansiosos por se livrar logo de um dever cívico que todos afirmam reconhecer como importante mas que nenhum deles pediu. Só que um dos jurados, que são identificados apenas por números, afirma que tem dúvidas sobre a culpa do garoto -- e como a lei exige que o veredito de culpado seja dado apenas caso não haja dúvida razoável, parte-se para uma acirrada discussão sobre a culpa ou a inocência do réu.

 

A discussão está muito longe de ser civilizada, pois logo afloram os preconceitos e pré-julgamentos que levam cada um daqueles homens a formar a opinião que têm. O réu, a vítima e as testemunhas são todos moradores de um cortiço, o que leva muitos dos jurados a demonstrar seus preconceitos de classe. Também há uma sugestão não explícita de racismo, embora nunca se afirme que o réu seja negro, quando um dos jurados se exalta e grita algo como "Precisamos acabar com eles antes que acabem com a gente!" Neste momento todos os outros personagens se colocam de costas para o racista, mesmo aqueles que acreditam na culpa do rapaz, numa demonstração de que mesmo em meio a um debate acirrado e apaixonado, não compartilham daquela visão de mundo que divide a humanidade entre "nós" e "eles".

 

Aliás a direção de atores, a cargo do experiente Eduardo Tolentino de Araújo, do famoso Grupo Tapa, é uma das melhores coisas dessa montagem. Com um elenco de atores de idades e perfis diferentes, um cenário que se resume a uma mesa e algumas cadeiras, o diretor imprime ao espetáculo um ritmo e uma movimentação cênica que não deixam nunca a bola cair, colocando-se no mesmo nível do texto afiado.Uma peça imperdível e emocionante para quem ainda acredita no valor do debate e da troca de ideias como ponte para um entendimento entre os diferentes.

 

 

Escrito por will robinson às 22h11
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