Lost-in-space


24/03/2011


Para sempre Liz

Alguns astros se tornam mitos porque vivem intensamente, morrem cedo e deixam eternizada sua juventude, tornando-se assim, como vampiros, para sempre jovens e belos: é o caso de James Dean e Marilyn Monroe. Outros optam por se retirar de cena no auge, deixando-se envelhecer longe dos holofotes, para que a imagem a ser eternizada, essa sim mantenha a sua beleza eterna: foi a opção de Greta Garbo. Há outros ainda que, tendo sido deuses da beleza, não têm vergonha de mostrar na tela sua decadência física, a queda dos cabelos, o acréscimo de gordura no corpo, as rugas no rosto, porque sabem que seu talento é maior do que tudo isso: foi o que fez Marlon Brando.



Paul Newman e Liz Taylor em Gata em teto de zinco quente


E há ainda aqueles raros privilegiados que envelhecem com graça e elegância e mantêm o charme, a chama e o talento até o final. Foi o caso de Paul Newman, foi também o caso de Elizabeth Taylor. Tendo sido uma das mulheres mais deslumbrantes da história do cinema, mesmo em suas últimas aparições públicas, fragilizada pelos inúmeros problemas de saúde e pelos excessos de sua vida atribulada, mesmo inchada, envelhecida e presa a uma cadeira de rodas, bastava olhar para aqueles olhos cor de violeta para ver as faíscas que demonstravam a existência da chama interna, uma chama que nunca se apagou.


Liz como Cleópatra

Há muitos filmes memoráveis em seu currículo, há muitas cenas inesquecíveis, há muitas personagens fascinantes para dar conta de lembrar em apenas algumas linhas. Vou citar então uma única cena que ficou marcada em minha memória: a cena em que Cleópatra, no filme de Joseph L. Mankiewicz, recebe o imperador romano Marco Antonio em seu palácio, vivido pelo igualmente intenso e inesquecível Richard Burton, o grande amor de sua vida, e ordena a ele que se ajoelhe. Quando o poderoso conquistador se recusa, ela diz, imponente: "A Julio César eu pedi que se ajoelhasse. De você eu exijo. De joelhos, é uma ordem!" E diante daqueles olhos violeta faiscando de cólera e autoridade, é claro que Marco Antonio e todo seu séquito se ajoelham feito cordeirinhos.


Richard Burton e Liz Taylor em Quem tem medo de Virginia Woolf?


Foi ao lado de Burton que ela fez aquele que é provavelmente seu grande papel, pelo qual ganhou seu segundo Oscar e pelo qual será eternamente lembrada não apenas como a mulher de beleza perfeita, mas também como grande atriz: a Martha de Quem tem medo de Virginia Woolf?, filme de Mike Nichols baseado na peça de Edward Albee, em que Liz, aos trinta e poucos anos, interpreta uma mulher de seus cinquenta e poucos, alcoólatra e amargurada. Fiquei chocado quando descobri que esse filme foi feito na mesma época que A megera domada, texto de Shakespeare dirigido por Zeffirelli, em que Liz e Burton estão ambos no auge da beleza e em plena forma. Não se tratava na época, como não se trata hoje, de "ficar feia" para conseguir seu Oscar, como tantos críticos engraçadinhos se apressam a rotular tantas atrizes, mas de usar maquiagem, figurinos e mesmo a transformação do corpo a serviço do talento e do perfeito entendimento do que o personagem pede, pois sem isso de nada serviriam os recursos materiais.


James Dean, Liz Taylor e Rock Hudson no set de Assim caminha a humanidade



Inesquecível e eterna Liz: se existe um paraíso, com certeza ele estará em festa hoje, pois seus amigos Montgomery Clift, Rock Hudson, James Dean, Michael Jackson, e mesmo seus amores, com Richard Burton à frente, estarão vestidos a caráter para uma grande celebração hollywoodiana, à qual você fará questão de convidar também as inúmeras pessoas que ajudou com sua luta contra a Aids e contra a discriminação. E obrigado por ter existido!


Liz Taylor e Montgomery Clift em Um lugar ao sol


Michael Jackson interpreta Elizabeth, I love you, em homenagem à sua grande amiga


P.S.: Leia também a inteligente e emocionante homenagem do Vitor Angelo em seu Blogay.

 

Escrito por will robinson às 02h13
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05/03/2011


A loira virou mito, mas a morena também era inesquecível

Apesar de ter estrelado mais de duas dezenas de filmes, a maioria nos anos 40 e 50, Jane Russell será eternamente lembrada por apenas dois deles: o primeiro, O proscrito (The outlaw, 1943), mais pela controvérsia que causou que por sua qualidade; e principalmente Os homens preferem as loiras (Gentlemen prefer blondes, 1953), ao lado da mítica Marilyn Monroe.

 

 

 

O proscrito entrou para a história como um dos dois únicos filmes dirigidos pelo excêntrico milionário-aviador-cineasta Howard Hughes (interpretado por Leonardo di Caprio no ótimo O aviador, de Martin Scorcese). Hughes era prolífico produtor de cinema, mas como diretor assinou apenas o drama de guerra Hell's Angels (1930) e o western O proscrito, este depois de ter brigado com o diretor original, Howard Hawks (o mesmo que mais tarde dirigiria Os homens preferem as loiras). O proscrito, que mostra os personagens históricos Billy the Kid (Jack Buetel), Pat Garrett (Thomas Mitchell) e Doc Holliday (Walter Huston) numa história fictícia, na qual a amizade entre eles é perturbada pela misteriosa Rio (Russell), já nasceu envolto em polêmica. Isso porque finalizado em 1941, o filme demorou dois anos para estrear devido à implicância da censura com os closes generosos no decote de Jane Russell, que segundo consta foi escolhida para o filme em função de seus atributos físicos. Durante esses dois anos de espera Hughes aproveitou para divulgar o filme fazendo sua estrela viajar por todo o país e espalhando a história de que ele teria pessoalmente criado um revolucionário sutiã a fim de ressaltar os fartos seios de sua protagonista. Na verdade, Jane revelou em sua autobiografia que jamais usou o tal sutiã, desconfortável demais, embora nunca tivesse dito isso a seu diretor.

 

Tanta implicância com os seios de Jane Russell, no entanto, deve ter desviado a atenção da censura da verdadeira polêmica que envolvia o filme. Qualquer um que saiba ler nas entrelinhas percebe rapidamente o subtexto homoerótico do filme. O verdadeiro triângulo amoroso que existe aqui é entre os dois veteranos cowboys e o belo jovem vivido por Buetel. A personagem de Jane é maltratada o tempo todo pelos personagens masculinos, chegando em algumas cenas a parecer vítima de um ritual sado-masoquista. Segundo o biógrafo de Howard Hughes, Charles Higham, contou no livro "O aviador" (o mesmo usado por Scorcese como base para seu filme), o diretor era bissexual e manteria um relacionamento com o jovem Buetel, o qual não prosseguiu na carreira de ator, e o roteiro de O proscrito nada mais seria que o desenvolvimento de uma fantasia sexual de Hughes.

 

Jane Russell e Jack Buetel

 

Depois de se livrar de um contrato com Hughes que a impediu durante vários anos de fazer outros papeis, Russell já tinha se tornado uma estrela quando filmou Os homens preferem as loiras, enquanto Marilyn Monroe era ainda um nome em ascensão na indústria do cinema. É famosa a história em que Marilyn, ao saber que sua parceira de cena ganharia muitas vezes mais que ela, embora ambas fossem protagonistas, teria dito: "Mas o filme se chama Os homens preferem as loiras, e EU sou a loira!" De qualquer forma, esse foi o filme que catapultou a carreira de Marilyn diretamente para o estrelato, principalmente devido à famosa cena em que canta Diamonds are a girl's best friends, de Jule Styne e Leo Robin, certamente uma das cenas musicais mais famosas e imitadas de todos os tempos. O que poucos que não viram o filme sabem é que Jane Russell também cantava a mesma canção no filme, numa cena em que imitava a personagem de Marilyn (e que você pode ver aqui). O mais interessante é que tendo tudo para se tornar rivais, as duas atrizes foram na verdade grandes amigas. Os biógrafos de Marilyn são unânimes em revelar que era Jane Russell quem frequentemente conseguia convencer a colega, que sofria de crônica insegurança, a deixar o trailer e entrar em cena.

 

Marilyn e Jane ao eternizar seus nomes na calçada da fama em Hollywood

 

Jane Russell em sua melhor cena de Os homens preferem as loiras, em que canta Anyone here for love?, de Hoagy Carmichael e Harold Adamson, em meio a uma equipe de nadadores olímpicos seminus -- os quais parecem completamente indiferentes à deusa!

 

Depois de deixar o cinema, Jane Russell se tornou uma devota cristã e uma republicana conservadora convicta, mas gostava de ressaltar: "Conservadora sim, racista nunca!" De qualquer forma, deixou sua marca como uma das mulheres mais sensuais da história do cinema; uma pena que como muitas estrelas que se destacaram primeiro pela beleza, tenha sido subestimada como atriz, embora tivesse também muito talento.

 

Descanse em paz, Jane Russell.

 

Jane Russell e Marilyn Monroe interpretam Two little girls from Little Rock, de Jule StyneLeo Robin, na abertura de Os homens preferem as loiras

 

Escrito por will robinson às 02h20
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