Lost-in-space


27/02/2011


Entrevista inédita com Caio F.

O escritor: Caio Fernando Abreu

Nascido em Santiago, Rio Grande do Sul, em 12 de setembro de 1948

Falecido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 25 de fevereiro de 1996

 

 

"Os homens precisam da ilusão do amor assim como precisam da ilusão de Deus, pra não afundar no poço horrível da solidão absoluta, pra não se perder no caos da desordem sem nexo."

(Caio Fernando Abreu, musicado por Laura Finocchiaro -- Necessidade)

 

Em 1992, eu era estudante de jornalismo na Fundação Cásper Líbero, em São Paulo, quando faleceu o poeta Péricles Eugênio da Silva Ramos, que era professor da faculdade mas que eu não cheguei a conhecer. Em homenagem a ele, um de meus professores planejou uma edição especial do jornal da faculdade voltado para a literatura, e pediu que entrevistássemos escritores famosos. Meu primeiro pensamento foi tentar um contato com minha autora favorita, Lygia Fagundes Telles, que já tinha conhecido anteriormente num evento literário (outro dia conto essa história aqui), mas como não consegui contatá-la naquela ocasião pensei então em outro de meus autores favoritos, o gaúcho Caio Fernando Abreu, cuja obra me acompanha desde a adolescência, quando o jovem confuso quanto à sua sexualidade procurava encontrar nos livros, já que não podia confiar nas pessoas, alguma resposta para suas inúmeras perguntas. Não que Caio tivesse respostas para dar, muito pelo contrário: sua obra, como a de qualquer artista que se preze, tem mais perguntas que respostas. Mas em seus livros pude encontrar personagens com quem me identificar, não necessariamente por serem gays, embora isso também contasse e muito para um adolescente em busca de referências, mas sim por serem almas atormentadas, cheias de conflitos, buscando alguma transcendência nesse caos que chamamos vida.

 

Do meu trabalho, liguei para a editora que tinha publicado seu último livro, o sensacional romance Onde andará Dulce Veiga (recentemente transformado em filme por Guilherme de Almeida Prado, com Maitê Proença, Carolina Dieckman e Eriberto Leão nos papéis principais). A pessoa que me atendeu foi super-atenciosa e em questão de minutos me pôs em contato com o próprio Caio, de modo que naquele mesmo dia saí do trabalho e me dirigi ao apartamento onde ele morava nos Jardins para entrevistá-lo. Ele me recebeu com muita cordialidade, embora não fosse exatamente uma pessoa muito sorridente, mas era muito gentil. Estava assistindo uma entrevista com Jorge Amado e quando perguntei se não queria esperar o fim do programa, ele me respondeu com seu senso de humor peculiar: "Não, eu já sei tudo que ele vai dizer mesmo."

 

Embora eu fosse apenas um jovem estudante querendo uma entrevista para o jornal-laboratório da faculdade, o escritor me tratou como um profissional, respondendo todas as minhas perguntas com objetividade e sem frescuras. Ouviu com paciência meus protestos de admiração e amor por sua obra, autografou meus livros preferidos -- o romance Onde andará Dulce Veiga, que ele comentou ter lhe dado um trabalho insano; o livro de contos Os dragões não conhecem o paraíso, de onde é tirada a citação que abre esse post; e o inesquecível Triãngulo das Águas, o qual contém três novelas, das quais "Pela noite", que narra o reencontro entre dois amigos de infância e o jogo de sedução que se estabelece entre eles, é uma das histórias mais memoráveis sobre um encontro de duas almas solitárias que se desejam mas têm medo de se conectarem que já li na minha vida; e ainda teve a bondade de concordar comigo quando disse que a canção Olhos vermelhos, de Guilherme Arantes, me fazia lembrar justamente a atmosfera dessa história. Ele ainda comentou que a atriz Regina Duarte gostava tanto de Pela noite que tinha lhe pedido para fazer uma adaptação teatral para duas atrizes, coisa que o próprio Caio, e eu concordo, achava quase impossível, pois a novela é uma história de amor entre dois homens, com todas as particularidades físicas e psicológicas que há numa relação desse tipo.

 

Uma das perguntas que fiz que não entraram na edição final foi por que a revista Veja tinha tanta implicância com ele a ponto de mencionar o nome dele, por exemplo, numa matéria sobre a Floresta Amazônica (ou seja, que não tinha nada a ver com literatura), usando uma metáfora do tipo: "É verdade que em meio à riqueza e à diversidade da Amazônia pode haver coisas tão inúteis quanto a literatura de Caio Fernando Abreu..." Ele respondeu simplesmente, "Eles sabem que não leio mais a Veja depois do que fizeram com Elis Regina na morte dela."

 

A certa altura ele reclamou de dores e vômitos que associava ao medo de criar, mas em retrospecto acredito que talvez já fossem os primeiros sintomas da Aids que lhe tiraria a vida alguns anos depois. Caio tinha uma coluna semanal no jornal O Estado de São Paulo e através dessas crônicas revelou ao público o diagnóstico da doença e todas as mudanças que ela provocou em sua vida, como voltar a morar com os pais em Porto Alegre e se dedicar à jardinagem, hobby que narrava com detalhes em suas crônicas.

 

No último dia 25 de fevereiro completaram-se 15 anos de sua morte. Em sua homenagem publico aqui uma edição da entrevista que fiz com ele, que afinal nunca foi publicada (a tal edição especial do jornal-laboratório nunca saiu) e cuja transcrição completa se perdeu, portanto essa edição que fiz na época é o único registro que restou de nossa conversa e permanecia inédito -- até agora.

 

will robinson - Você trata de questões muito polêmicas em seus livros, como homossexualismo, drogas, suicídio, Aids. Você pensa na reação do leitor, se ele vai ficar chocado ou não?

 

Caio Fernando Abreu - Não, não penso. Eu sou uma pessoa super-informada, e eu escrevo sobre esse mundo contemporâneo, real, que a gente vive. Se ele é feito de coisas violentas é a pura realidade, e se alguém se chocar com o real eu sinto muito, é uma atitude hipócrita. Eu sempre penso que literatura, no Brasil, é uma coisa meio dispensável. Como escritor você se sente socialmente inútil, não tendo nenhuma possibilidade de participar de uma melhora da situação social do país. Mas acho que o papel do escritor é registrar a realidade emocional contemporânea, e dessa forma não exatamente fotografar, mas retratar o seu tempo. Esse é o nosso trabalho social.

 

-- De onde você tira seus personagens e suas histórias?

 

-- Os personagens saem da observação de pessoas reais. A figura da Dulce Veiga em Onde andará Dulce Veiga, por exemplo, foi inspirada na Odete Lara, que foi a maior atriz do cinema brasileiro dos anos 50, e abandonou tudo para se tornar budista e viver num sítio. [Nota: Dulce Veiga era justamente o nome da personagem vivida por Odete Lara no filme A estrela sobe, de Bruno Barreto, onde interpretava a canção Nada além, de Mário Lago e Custódio Mesquita, como a Dulce Veiga do livro.] E outras personagens do livro, como a Márcia Felácio, eu me inspirei naquelas meninas que tinham um grupo de rock chamado As Mercenárias. Mas com muita liberdade, misturando com outras pessoas. Já as histórias, elas brotam, Wil, é uma coisa muito estranha, difícil de descrever. Podem vir de uma coisa que você observou numa praça, numa rua, numa casa... Mas depende, em geral as histórias me vêm muito subitamente. Para contar uma história é preciso cercar a ideia; depois que a primeira frase vem limpa, as palavras vêm. Mas as imagens precisam primeiro passar pelo filtro das palavras. Atualmente eu estou trabalhando num projeto de um livro chamado Malditas fadas, com reescrituras para adultos daqueles contos de Andersen. [Nota: o conto Sapatinhos vermelhos, publicado no livro Os dragões não conhecem o paraíso, acabou sendo a única experiência, que eu saiba, que ele concretizou nesse sentido.] Mas ultimamente eu tenho evitado ao máximo escrever porque eu passo mal, me dá dores na coluna, me dá vômito, eu sinto um desconforto físico muito grande, então eu tento fugir disso. Acredito que isso tem a ver com o medo de não conseguir dar forma às histórias, de não conseguir mais criar.

 

 

Maitê Proença como Dulce Veiga no filme de Guilherme de Almeida Prado

 

-- O que você acha da literatura que é feita hoje no Brasil?

 

-- Olha, eu acho muito desamparada a literatura brasileira. Um dos trabalhos que eu faço é dirigir oficinas de criação literária por todo o Brasil, e por esse contato real com os jovens eu sei que existe gente jovem querendo escrever e escrevendo muito bem. Mas as editoras não abrem as portas. Eu acho que na atual sociedade de consumo tudo tem que ser vendável. Então se você pinta um quadro, não importa se o quadro é muito bom, importa mais se você for nas vernissages, fizer caras exóticas para os fotógrafos, aparecer na coluna social, ter o seu nome falado. Quando eu comecei a escrever eu achava que a crítica poderia me ajudar a compreender melhor o meu trabalho. Mas o que eu fui vendo, como escritor e como jornalista, é que é tudo sempre muito viciado, muito mau-caráter. Então elogia-se um livro porque o editor é amigo do escritor, ou comeu a mulher dele, é horrível isso, é muito humilhante. Quer dizer, o que eu vejo é uma super-valorização da superfície, da aparência, e não do trabalho, e isso é uma característica do nosso tempo muito lamentável.

 

 

 

"E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, no tão íntimo, mas tão íntimo, que de repente a palavra "nojo" não tem mais sentido? (...) O amor só acontece quando a gente aceita que também é bicho."

(Caio Fernando Abreu, trecho de Pela noite transformado em canção por Laura Finocchiaro como Amor Nojento)

 

 

Como não há vídeos das canções que Laura Finocchiaro musicou com base em textos de Caio, publico aqui outra canção dela, Link, em parceria com Leca Machado, disponível no cd Oi, o mesmo que contém as canções Necessidade e Amor nojento.

 

Escrito por will robinson às 05h02
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