Wagner Belinato é um jovem estudioso da obra de Caio Fernando Abreu que leu meu conto "O gosto amargo do seu corpo", publicado na coletânea Triunfo dos Pêlos e outros contos GLS, da editora GLS (o livro está disponível para compra aqui), no qual cito o livro Morangos Mofados. Autor de uma dissertação sobre a obra de Caio, Wagner me encontrou através do Orkut e me encaminhou uma série de perguntas, cujas respostas aproveito pra reproduzir aqui.

Em primeiro lugar deixe-me explicar como entrei em contato com a obra do Caio. Embora meu conto "O gosto amargo do seu corpo" seja fictício, devo dizer que emprestei ao protagonista/narrador várias de minhas próprias características pessoais, bem como parte da minha história. Assim como o narrador, que propositalmente não tem nome (da mesma forma que alguns narradores das histórias de Caio, o que já é uma influência), fui um adolescente bastante introvertido e solitário, que buscava conforto e compreensão nos livros e na música. Assim como ele também mudei de cidade na adolescência, quando minha família mudou-se de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, para Santos, no litoral paulista. Mas ao contrário do meu personagem, somente quando entrei na faculdade é que fui encontrar pessoas com quem pudesse falar a respeito da minha sexualidade. Até então, à medida em que ia me descobrindo homossexual, tinha somente os livros e alguns poucos filmes para me ajudar a compreender o que estava acontecendo comigo. Foi nesse contexto que descobri a obra de Caio Fernando Abreu.

Não sei dizer exatamente como descobri o livro Morangos Mofados. Lembro-me que assinava uma revista literária da editora Brasiliense, cujo nome não me recordo, que era dirigida aos jovens e que falava dos lançamentos da editora, se não me engano a primeira a publicar a obra do Caio, na série Cantadas literárias. Mas já não me lembro se foi através da revista que vim a conhecer a obra dele ou se foi o contrário, através do livro é que conheci a revista. O fato é que sempre fui frequentador assíduo de livrarias, basicamente desde que aprendi a ler, e adoro fuçar as prateleiras atrás de novidades.
Seja como for, Morangos Mofados me causou profunda impressão, não só pelo conteúdo homoerótico do livro, mas principalmente pela força da linguagem. Mais ou menos
na mesma época li o Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva, e descobri a poesia de Bruna Lombardi em O perigo do dragão (o qual aliás tem um poema chamado "Pra Ana C. e Caio e todos nós", a respeito da morte da poeta Ana Cristina César). Esses três autores, a princípio tão diferentes entre si, me influenciaram muito pela linguagem que usavam -- até ler Bruna Lombardi, eu via a poesia como um bicho de sete cabeças, algo incompreensível aos não-iniciados, e com ela descobri que poesia podia ser simples, direta, de fácil compreensão e de alto teor erótico, características também presentes no livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, que tinha a linguagem que nós jovens usávamos na época, com todas as gírias e palavróes a que tínhamos direito, e as
descrições mais literais e detalhadas de um ato sexual que eu já tinha visto até então.
Embora a linguagem de Caio fosse mais elaborada, e variasse muito de conto a conto, eu também via nele essa característica de descrever a vida como ela é, sem metáforas, sem meias palavras. Me lembro do choque que foi ler um conto como "Sargento Garcia", do misto de nojo e excitação que sentia diante daquela descrição tão crua da iniciação sexual de um jovem por um sargento. E da espécie de frustração pelo que julgava a falta de um final para o conto "Aqueles dois".
Mais tarde, quando cursava Jornalismo (que foi minha segunda faculdade, a primeira foi Letras), cheguei a entrevistar o Caio em seu apartamento nos Jardins, em São Paulo. Uma das perguntas que fiz a ele foi justamente sobre isso: perguntei se ele não tinha medo de chocar as pessoas com suas descrições tão diretas e cruas envolvendo sexo e drogas. A resposta dele eu nunca esqueci: disse que descrevia a vida como ela é, sem disfarces, e se as pessoas se chocavam com isso, o problema era delas e não dele. Foi inspirado por essa resposta que tive a coragem e a ousadia necessárias para escrever meu conto e incluir nele uma cena de sexo bastante gráfica, como dizem hoje em dia, e que inclusive me rendeu muitas críticas de pessoas que achavam a tal cena gratuita e desnecessária, mas eu particularmente me orgulho dela e devo isso, em parte, à influência do Caio.
Agora vamos às suas perguntas:
1 – A descoberta do livro Morangos Mofados, na trama, parece ser essencial para que o protagonista chegue a perceber plenamente sua sexualidade. Quais são, para você, as principais influências do Caio na sua obra? Você quis atribuir algum significado especial com a citação? Há outras obras suas em que se fazem referências ao autor?
Acho que já respondi essa pergunta com a introdução acima. O efeito que a obra teve em mim, como já lhe contei, foi também o efeito que quis que ela tivesse sobre o protagonista do meu conto. Foi uma maneira abreviada de explicar que o personagem não tinha com quem conversar sobre sua sexualidade, e que os livros cumpriam essa função, a do auto-conhecimento. Quanto às minhas "obras", na verdade "O gosto amargo do seu corpo" é meu único trabalho publicado.
2 – O próprio Caio tinha bastante influência de outros autores – e os citava deliberadamente. De que outros autores – nacionais e estrangeiros, você verifica maior influência na sua obra?
Olha, faz algum tempo que não leio nem releio os livros do Caio, mas sei que uma influência marcante foi a de Clarice Lispector, a qual ele citava constantemente. Vejo também alguma influência de Lygia Fagundes Telles, e sei que ele falava muito da poeta Ana Cristina César, acho que mais em função da amizade que os unia do que propriamente por uma questão de influência.
3 – Entre os livros que encontrei com referência a Caio, o seu é um dos dois (o outro é Lado B – Histórias de Mulheres, da Lúcia Facco), que é publicado pela Edições GLS. É diferente, para o público, a existência de uma editora especializada em literatura para homossexuais? E para o autor?
Essa é uma boa pergunta, Wagner, para a qual receio não ter uma resposta definitiva. Por um lado, acho que o rótulo "literatura para homossexuais" é puramente redutor e preconceituoso, seria o mesmo que dizer que Jorge Amado, por exemplo, fazia literatura para heterossexuais. Qual o sentido disso? A obra de Caio Fernando Abreu trata de temas universais, da mesma forma que autores como Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, João Silvério Trevisan, Thomas Mann e tantos outros jamais poderiam ser considerados autores de uma literatura gay, somente pelo fato de terem criado personagens homossexuais em suas obras. Por outro lado, talvez um conto como o meu jamais teria sido publicado se não fosse pela existência de uma editora como a GLS, a qual inclui em seu catálogo obras que são dirigidas quase que exclusivamente ao público gay (caso de coletâneas de contos eróticos, por exemplo). Acho que num mundo ideal uma editora como essa não precisaria existir, mas como não vivemos num mundo ideal...
4 – O seu conto possui temática homossexual, mas ao mesmo tempo trata das transformações e das dúvidas que aparecem na adolescência. Na sua opinião, citar Caio influencia de alguma maneira o leitor?
Isso quem poderia responder seria o leitor. Certamente aquele que já leu a obra de Caio vai entender melhor os conflitos e as motivações do protagonista, e aquele que não leu, se gostou do conto, espera-se que vá atrás e procure conhecer a obra de Caio. Só espero, como já disse antes, que o leitor não pense que Caio é um autor dirigido somente aos gays, assim como eu, com minha modesta contribuição para a literatura, também não desejaria ser visto desse modo.
5 – As demais obras em que encontrei referências a Caio foram o conto Kitaro para Maga, de A farsa dos milênios, do Arturo Gouveia (Ed. Iluminuras), Vida, de Lado B – Histórias de mulheres, da Lúcia Facco (Ed. GLS), Por um cristal partido, de Pedro Stiehl, de Rapsódia em Berlim (Ed. AGE) e a novela Acaju, de Marcelo Mirisola, em Notas de arrebentação.ed. 34. Você conhece estas histórias? O que acha de Caio Fernando Abreu começar a ser citado no contexto literário do qual fez parte?
Não conhecia nenhuma dessas obras. Já ouvi falar do autor Marcelo Mirisola, mas não o li. Quanto a eles citarem Caio, acho perfeitamente natural. Acredito que Caio Fernando Abreu foi um grande escritor, cuja obra, como já disse, aborda temas universais, independentemente da idade, nacionalidade, sexo ou orientação sexual de quem o leia. E todo grande autor estará destinado a influenciar e a ser citado por outros autores, nada mais natural.
6 – Márcia Denser, amiga do Caio, escritora e teórica, questiona “Será que as impressões de Caio F. no imaginário posterior se reduzem a estereótipos gay? O que é, simultaneamente, inevitável e lastimável, sobretudo quanto à recepção futura da ficção do autor gaúcho.” De certa forma, seu conto reforça a afirmação. Você concorda com ela? Isso seria negativo?
Não concordo de maneira nenhuma. A obra de Caio fala de solidão, de amor, de sexo, de violência, de morte, de angústia, temas universais, como já disse mais de uma vez. Não há "estereótipos gay" em sua obra, há personagens complexos cuja sexualidade pode ser dirigida ao mesmo sexo, ao sexo oposto, a ambos ou a nenhum. Se a maioria de seus protagonistas é homo ou bissexual, acredito que isso se deva ao fato de que é mais fácil para um autor falar sobre aquilo que conhece, e é por isso também que meu próprio protagonista também é gay. Não acho nem inevitável nem lastimável que sua obra seja vista como homoerótica. Não é inevitável na medida em que trabalhos como o seu próprio tragam luz à obra de Caio e atraiam para ela leitores que vão julgar por si mesmos de que maneira vão lidar e se deixar influenciar pela obra dele. E não é lastimável porque, mesmo sendo visto como um autor gay, Caio se juntaria a uma longa lista de notáveis, que inclui Gore Vidal, Virginia Woolf, Oscar Wilde, André Gide, Marguerite Yourcenar e tantos outros gênios que trataram do amor entre iguais em suas obras.

Leia também as respostas do escritor Pedro Stiehl às perguntas de Wagner Belinato em seu blog.






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