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07/01/2012


Até a disputa pelo poder corrompe absolutamente

O filme: Tudo pelo poder

Título original: The ides of March (EUA, 2011)

Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon, baseado na peça Farragut North, de Beau Willimon

Produção: George Clooney, Grant Heslov, Brian Oliver

Direção: George Clooney

 

 

 

O outro filme: Segredos do Poder

Título original: Primary Colors (EUA, 1998)

Roteiro: Elaine May, baseado no romance de Joe Klein

Produção e direção: Mike Nichols

 

 

 

Tudo pelo poder, a começar pelo nome brasileiro, é em tudo semelhante a outro filme retratando os bastidores de uma campanha presidencial americana: Segredos do poder, de 1998. No filme de Mike Nichols, John Travolta interpretava um candidato baseado sem grandes disfarces em Bill Clinton, enquanto Emma Thompson representava sua mulher, baseada na atual secretária de Estado americana Hillary Clinton; e o inglês Adrian Lester fazia o jovem idealista que trabalhava na campanha por acreditar no candidato e depois vinha a se decepcionar com ele. No filme de George Clooney, o próprio diretor faz o papel do governador Mike Morris, pré-candidato do Partido Democrata, e Ryan Gosling é um dos assessores de sua campanha. Não faltou quem associasse o personagem de Clooney a Barack Obama, ainda mais que Clooney é um democrata convicto e participou ativamente da campanha vitoriosa de Obama à presidência. Mas a peça em que o filme se baseia foi escrita tendo em mente a campanha nas primárias do então governador de Vermont, Howard Dean, em 2004, o qual acabou perdendo a indicação do partido Democrata para o senador John Kerry, o qual por sua vez foi derrotado na eleição por George W. Bush.

 

 

Adrian Lester e John Travolta em Segredos do Poder

 

Uma rápida explicação para quem não entende muito de política é necessária para o bom entendimento do filme. Nos Estados Unidos há apenas dois partidos com representação no Congresso: o Republicano, mais conservador, ao qual pertence o ex-presidente George W. Bush, e o Democrata, mais liberal, de Obama e Clinton. De 4 em 4 anos, cada um dos partidos passa por um complicado e complexo sistema de primárias nos Estados americanos, para que cada um dos Estados se decida por um dos pré-candidatos. Basicamente, aquele que tiver o maior apoio se torna o candidato do partido a presidente. Atualmente, o presidente Barack Obama já foi declarado candidato à reeleição este ano, e o Partido Republicano está em pleno processo de primárias, como as que são retratadas em Tudo pelo poder.

 

 

George Clooney e Ryan Gosling em Tudo pelo poder

 

A maior diferença entre o filme atual e o anterior é que em Segredos do Poder o jovem idealista se decepciona com seu candidato mas preserva sua dignidade, e em Tudo pelo poder o personagem de Ryan Gosling, ao descobrir os podres de seu candidato, acaba se rendendo à cínica constatação de que os fins justificam os meios -- ou seja, de que a fim de chegar ao poder e assim colocar em prática seus ideais, é preciso sujar as mãos no meio do caminho, ainda que isso venha a ferir de morte a parte mais fraca na história. E é aí que o filme, à primeira vista tão enraizado nas práticas políticas americanas, se torna universal -- e não é à toa que seu título original, "Os idos de março", é uma citação shakesperiana que remete ao assassinato de Júlio César por um de seus mais próximos aliados.

 

Evan Rachel Wood e Ryan Gosling em Tudo pelo poder

 

O papel que o autor destas linhas teve no partido que atualmente ocupa o poder em nosso país é irrelevante comparado ao dos personagens de ambos os filmes -- fui apenas um simpatizante que teve sua fase de militância e que chegou a trabalhar ativamente numa campanha eleitoral de um político que acabou se tornando a face mais nefasta do partido que prometia ser diferente de todos os outros e terminou se revelando igual a todos os outros nos meios que usou para atingir seus fins. (Dando nome aos bois: estou me referindo ao ex-ministro José Dirceu). Se "o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente", como disse Lord Acton, o que vemos hoje em dia é que a simples disputa pelo poder já corrompe absolutamente.

 

Mas para terminar esse texto sem o travo amargo que o filme de George Clooney deixa em seu final, fica uma esperança: a de que os movimentos espontâneos de mobilização popular em todo o mundo que levaram a revista Time a definir a figura do "manifestante" como o homem do ano de 2011, representem uma nova forma de fazer política, que não seja tão hipócrita quanto aquela que é feita pelos políticos profissionais.

 

 

 

Escrito por will robinson às 23h44
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27/11/2011


A pele, o corpo, a mente, o sexo... dá pra separar?

Filme: A PELE QUE HABITO

Título original em espanhol: La piel que habito (Espanha, 2011)

Roteiro: Pedro Almodóvar, baseado no livro Tarântula (Mygale), de Thierry Jonquet

Produção: Agustín Almodóvar e Esther García

Direção: Pedro Almodóvar

 

 

 

Tenho visto e lido muitas bobagens sobre o filme A pele que habito, o mais recente daquele que é na minha opinião o maior cineasta vivo, o espanhol Pedro Almodóvar. A mais frequente é de que este seria um Almodóvar atípico, completamente diferente de tudo o que ele já fez. Outra é de que o filme é frio, cerebral demais e sem o calor e o melodrama de seus filmes anteriores.

 

Na verdade todos os temas presentes neste filme são temas recorrentes na obra de Almodóvar. Aqui temos uma pessoa sequestrada e mantida em cativeiro por seu algoz, como em Ata-me, com inclusive o mesmo protagonista, Antonio Banderas. Temos o tema da mudança de sexo, como em Tudo sobre minha mãe. Há a rivalidade entre irmãos, e a troca de identidades, como em Má Educação. Há a submissão de corpos impotentes diante do desejo alheio, como em Fale com Ela. E sobretudo há o eterno e recorrente tema do desejo e de seus insondáveis desígnios, como em toda a filmografia do diretor.

 

 

 

Também esteticamente não se notam diferenças tão gritantes. Na verdade a estética do filme me lembrou muito Fale com Ela, na minha opinião a obra-prima do diretor. Em ambos há a aproximação entre diferentes artes, nesse caso as artes plásticas entrando no lugar da dança no outro filme. Nada mais natural, afinal o protagonista é um cirurgião plástico, em busca da criação de um corpo perfeito e de uma pele invulnerável, um esteta obcecado pela busca da beleza e da perfeição, e não é de se estranhar que sua casa seja repleta de belíssimas obras de arte -- e a beleza dos quadros se reflete muitas vezes na posição dos atores em cena, como se estivessem posando para um artista (e não estão?). Mas também o uso da música é semelhante. Se em Fale com Ela Caetano Veloso marcava presença cantando em espanhol, aqui a cantora espanhola Buika aparece cantando uma canção que já havíamos ouvido anteriormente em português no próprio filme, e que terá importância fundamental no desenrolar da história. (A canção é Pelo amor de amar, de José Toledo e Jean Manzon, e gravada por Ellen de Lima nos anos 50. Escute a gravação original aqui.) Aliás, o Brasil é uma presença constante nesse filme, embora não de forma explícita.

 

 

Antonio Banderas e Elena Anaya, ambos impecáveis

 

É difícil falar da história sem entregar detalhes que podem estragar um pouco as surpresas que o filme reserva -- eu mesmo, embora não tivesse lido muitas críticas sobre o filme antes de vê-lo, li o suficiente para adivinhar o grande segredo muito antes da revelação. Mas a verdade é que A pele que habito, como toda obra de arte que se espera de um grande artista como Almodóvar, não se esgota nas surpresas que o roteiro reserva para o espectador. É verdade que dessa vez ele escolheu trabalhar na chave de um filme de suspense, embora o humor esteja lá presente o tempo todo, muito mais discreto, no entanto, que em alguns de seus filmes anteriores. Mas o suspense é apenas o meio, não o fim. Os segredos são a cereja do bolo, não a essência do filme. O que importa mesmo é o mergulho profundo na alma de seus personagens, os quais podem parecer à primeira vista caricaturas grotescas e monstruosas de seres humanos, mas que não passam de retratos, vistos com lente de aumento, do monstro que habita em cada um de nós. Dentro de nossa pele.

 

Buika interpretando Por el amor de amar (Pelo amor de amar), de José Toledo e Jean Manzon

 

Escrito por will robinson às 04h26
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03/11/2011


Por um sentido na vida

A peça: OS ALTRUÍSTAS

Título original em inglês: The Altruists

Texto: Nicky Silver

Tradução: Érica de Almeida Rego Migon e Úrsula de Almeida Rego Migon

Elenco: Mariana Ximenes, Kiko Mascarenhas, Jonathan Haagensen, Miguel Thiré e Stella Rabello

Produção: Mariana Ximenes, Francisco Accioly e Roberto Vitorino

Direção e adaptação: Guilherme Weber

 

O filme: A PARTIDA

Título original em japonês: Okuribito (Japão, 2008)

Roteiro: Kundô Koyama, baseado no livro Nkanfu Nikki, de Aoki Shinmon

Produção: Toshiaki Nakazawa, Ichirô Nobukuni, Toshihisa Watai

Direção: Yôjirô Takita

 

O outro filme: MINHAS TARDES COM MARGUERITTE

Título original em francês: La tête en friche (França, 2010)

Roteiro: Jean Becker e Jean-Loup Dabadie, baseado no livro de Marie-Sabine Roger

Produção: Louis Becker

Direção: Jean Becker

 

"O Tim fez tudo o que podia fazer na vida. Comeu as mulheres que queria, usou o que quis, fez músicas maravilhosas, conheceu gente bacana, mas nunca esteve realmente feliz. Sempre achava que queriam roubar a mulher, o guitarrista, os cachorros... Acho que o único ano que ele foi realmente feliz foi quando frequentou a igreja [a doutrina Cultura Racional]. Não bebia, não cheirava, perdeu 20 kg. Musicalmente, foi a melhor fase de sua carreira. (...) É como o cara que se torna evangélico: encontrou um sentido pra vida."

Nelson Motta em entrevista a Paulo Lima, falando sobre Tim Maia

 

Qual é mesmo o sentido da vida? Eis a pergunta que tem mobilizado filósofos, escritores, poetas, artistas, psicólogos, teólogos, desde que o ser humano adquiriu consciência de sua própria existência -- e jamais ninguém chegou a qualquer conclusão definitiva sobre o tema.

 

 

 

Em sua peça Os Altruístas, o americano Nicky Silver retrata um grupo de pessoas que parecem procurar um sentido em suas existências através de um suposto altruísmo. Segundo a Wikipédia, "Altruísmo é um tipo de comportamento encontrado nos seres humanos e outros seres vivos, em que as ações de um indivíduo beneficiam outro trazendo, algumas vezes, até mesmo algum tipo de prejuízo para o próprio." Vejamos: a protagonista do espetáculo é uma atriz de novelas, Sydney (vivida com brilhantismo por Mariana Ximenes), a qual acredita que seu trabalho equivale ao de um assistente social, uma vez que ela leva conforto às vidas solitárias e tediosas das pessoas que acompanham sua novela açuçarada. Mas não se sabe se é realmente por sentir uma vontade maior de ajudar o próximo ou simplesmente por amor ao namorado, Tony (Miguel Thiré), se é que é possível falar em amor no universo niilista de Nicky Silver, Sydney usa o dinheiro que ganha como estrela de televisão para sustentar o grupo de ativistas ao qual pertence o namorado. Ativistas que lutam por uma causa, seja ela qual for, ao ponto da ativista Cybil (Stella Rabello), uma "lésbica política" que vive com uma mulher mas só se interessa sexualmente por homens, não ter ideia de contra o que vão protestar na passeata agendada para a tarde do dia em que se passa a história.

 

Já o irmão de Sydney, Ronald (o igualmente ótimo Kiko Mascarenhas, que atua o tempo todo vestindo uma camisola feminina), é realmente um assistente social, e leva o trabalho tão a sério que se envolve sexualmente com os desprivilegiados que deveria ajudar. No momento em que começa a história ele está perdidamente apaixonado por um michê com quem passou a noite, o simplório Lance (Jonathan Haagensen), o qual, talvez devido à total falta de ambição intelectual, é o único personagem a ser tratado com alguma simpatia pelo autor, e não por acaso será o primeiro a ser sacrificado pelos demais "altruístas" no momento em que a ação praticada por um deles ameaça causar algum prejuízo concreto aos interesses do grupo.

 

 

 

Por trás do cinismo cruel com que Nicky Silver retrata seus personagens, é possível perceber neles uma ânsia por achar algum sentido para justificar suas existências. O mais cruel nesses personagens é justamente a sinceridade com que parecem justificar suas ações arbitrárias, acreditando que estão realmente agindo para melhorar o mundo em que vivem.

 

 

 

Por falar em falta de ambição intelectual, será que a ignorância pode ser, paradoxalmente, uma proteção contra a depressão que acomete aqueles que pensam demais? Essa parece ser a questão que motivou o diretor Jean Becker a realizar Minhas tardes com Marqueritte, cujo nome original, La Tête en Friche, significa justamente algo como "cabeça vazia". Refere-se a Germain (Gérard Depardieu, magistral como sempre), um homem simples, mas não simplório, morador de uma cidadezinha do interior da França. Sem profissão definida, ele sobrevive de pequenos bicos e trabalhos braçais, vive num trailer no quintal da casa de sua mãe (vivida por Claire Maurier e nos flashbacks, quando jovem, por Anne Le Guernec), com quem tem uma relação difícil, cultiva legumes em sua horta a fim de aumentar os rendimentos e namora a motorista de ônibus Annette (Sophie Guillemin). Provavelmente disléxico, era ridicularizado na escola por não conseguir ler direito e se sentia rejeitado pela mãe, que não demonstrava qualquer carinho por ele. Sem muita auto-estima, sofrendo gozações até dos amigos por sua ignorância e falta de tato, é no entanto um homem profundamente sensível e carente, que sempre arruma um tempinho para dar comida aos pombos numa pracinha. E é aí que conhece Margueritte (Gisèle Casadesus), uma senhora idosa e solitária que como ele gosta de observar os pombos e dar-lhes apelidos conforme suas características individuais (sim, pombos têm personalidades distintas, sim senhor).

 

 

 

Margueritte (com dois Ts, como ela faz questão de frisar), que com o decorrer da história descobriremos tratar-se de uma médica aposentada que dedicou a vida à carreira e a ajudar os desvalidos e por isso não constituiu família, tem nos livros sua grande companhia. Começa a ler em voz alta A Peste, de Albert Camus, para Germain, e este tanto se encanta com a experiência que passa a adotar o hábito diário de ler com sua amiga, pois como ela lhe explica ele é tão leitor quanto ela, embora esteja apenas ouvindo. Com o tempo um novo mundo se abre para o rapaz, trazendo-lhe uma nova visão da vida e de si mesmo, embora nem sempre ele goste das coisas que começa a entender -- nós que pensamos demais sabemos o quanto isso pode ser doloroso às vezes.

 

 

 

Assim como muitos dos problemas de Germain se originam na falta de amor por parte da mãe inconsequente e de um pai que nunca conheceu, também o músico Daigo (Masahiro Motoki), protagonista de A Partida, se ressente da ausência do pai, que o abandonou quando tinha apenas seis anos, e se sente culpado por não ter estado perto da mãe quando ela faleceu. Quando seu sonho de tocar violoncelo numa grande orquestra se despedaça, Daigo e sua esposa, Mika (Ryoko Hirosue), mudam-se para a casa que foi de sua mãe, no interior. Procurando emprego, ele responde a um anúncio sem saber direito do que se trata e acaba trabalhando para Ikuei Sasaki (Tsutomu Yamazaki), um homem que se especializou em preparar corpos para velório. Mas não se trata apenas de lavar, vestir e maquiar um corpo para que fique apresentável para sua família, e sim de fazer tudo isso na presença da família, de forma respeitosa e ritualística, de maneira que a família e os amigos do falecido possam dar-lhe o último adeus e guardar uma última imagem agradável de seu ente querido. Tal ritual resulta em cenas poeticamente intensas e emocionantes, onde não há espaço para qualquer traço de morbidez. Uma das cenas mais impactantes é quando o pai de um adolescente transexual que cometeu suicídio vem agradecer chorando aos profissionais que a pedido da mãe vestiram e maquiaram o corpo com vestes femininas, dizendo que nunca havia aceitado o filho como transgênero, mas ao ver o sorriso no corpo inerte reconheceu o sorriso daquele que seria sempre seu filho, independente de como estava vestido.

 

(E aqui abro um parênteses para contar uma história pessoal. Quando meu pai faleceu, depois de longa e penosa enfermidade, não houve velório, como era seu desejo. Mas ficamos eu, minha mãe, meu irmão, minha cunhada e minha tia a noite toda no hospital, numa espécie de velório sem corpo, esperando para que pudéssemos vê-lo pela última vez antes que o caixão fosse fechado. E ao vê-lo enfim, barbeado, maquiado, vestido, cercado de flores e com um semblante sereno, pudemos todos guardar dele uma última lembrança muito diferente do semblante abatido e sofrido que ele demonstrava em seus últimos dias de vida. E por ter visto esse filme depois de ter tido essa experiência é que pude entendê-lo em toda a sua plenitude.)

 

O curioso é que ao trabalhar com a morte, um trabalho que provoca repulsa em seus amigos e até mesmo em sua esposa, é que Daigo redescobre o gosto de viver e volta a tocar seu violoncelo apenas por prazer, sem ter a necessidade do aplauso de um público. Encontrou um sentido para a sua vida, assim como Germain, que encontrou o seu não só no conhecimento mas também no amor maternal que não teve de sua própria mãe e encontrou na amiga idosa. E não é por acaso que em ambos os filmes, o francês e o japonês, os protagonistas se vejam na perspectiva de serem pais justamente no momento em que perdem o genitor que lhes causou tanto sofrimento e descobrem, para sua imensa surpresa, que afinal, mesmo de um jeito tortuoso e obscuro, foram amados.

 

 

 

E quem sabe o sentido da vida não seja esse, justamente? Ou, como tão bem definiram Lennon e McCartney,

 

"And in the end the love you take is equal to the love you make."

 

The Beatles, The End (John Lennon, Paul McCartney)

 

Escrito por will robinson às 01h55
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26/09/2011


It gets better... I hope

Aconteceu de novo.

 

Mais um jovem adolescente americano tirou sua própria vida, por não aguentar o bullying, as agressões e provocações de que era vítima, pelo simples fato de questionar sua sexualidade.

 

 

James Rodemeyer, 14 anos, era um garoto sensível que adorava Lady Gaga e se declarava bissexual. Sua mãe diz nessa entrevista que havia anos que o garoto reclamava de bullying e já revelava tendências suicidas.

 

Por causa de casos como o dele, que vêm se multiplicando assustadoramente nos últimos anos, o escritor americano Dan Savage e seu marido Terry Miller lançaram o projeto It gets better, o qual reúne depoimentos de pessoas que já foram vítimas de bullying relatando suas histórias a fim de inspirar esperança aos jovens e assegurar-lhes que o difícil período da adolescência e da vida escolar vai passar e eles vão conseguir viver sua vida do jeito que escolherem, e serem aceitos pelo que são. Entre as diversas celebridades que já gravaram depoimentos para o projeto está o próprio presidente Barack Obama.

 

O mais irônico na história do garoto James é que ele próprio havia gravado um depoimento para esse projeto alguns meses antes de cometer suicídio. Veja trechos desse depoimento nessa reportagem de Anderson Cooper para a CNN (em inglês):

 

 

Em seu depoimento, o garoto cita a música Born this way, de sua cantora preferida, a excêntrica e divertida Lady Gaga, a qual vem realizando um belo trabalho contra a homofobia juntamente com outras cantoras famosas como a pioneira Cyndi Lauper. Fui atrás desse vídeo, que ainda não tinha visto inteiro (admiro Lady Gaga por suas ousadias artísticas mas não sou grande fã de sua música) e me deparei com a figura bizarra do modelo Rick Genest, o qual tem o rosto e toda a parte superior do corpo tatuada para parecer um corpo em decomposição. Pesquisando sobre o rapaz, acabei descobrindo uma entrevista linda com a mãe dele, dizendo que ela e o restante da família, que ela descreve como bastante conservadora, aceitaram o moço como ele é, mesmo porque é uma pessoa carinhosa e responsável.

 

 

Essa história me fez lembrar uma senhora inglesa que me hospedou quando estudei em Londres, chamada Jean, uma típica dona de casa conservadora que tinha um filho punk que usava cabelo moicano, piercings e tatuagens e morava com ela e o pai na época. Lembro de ouvir Jean dizer que aceitava o filho sem problemas, porque o conhecia, sabia o ser humano que ele era, sabia que sua aparência não influenciava sua maneira de ser, e por causa dele aprendeu a também não julgar os outros pela aparência.

 

E é exatamente por isso que pessoas que pertencem a alguma minoria que sofra algum tipo de discriminação, sejam elas (nós) gays, negros, punks, tatuados, góticos, ateus, qualquer coisa, enfim, precisamos mostrar nossa cara, mostrar quem somos, mostrar que somos gente como todo mundo, justamente para que a sociedade aprenda a nos respeitar e a nos aceitar como somos. E para que jovens como James nunca mais precisem abrir mão da própria vida antes mesmo de saber o que é viver.

 

 

Parabéns Papai Gay e Filhão por mostrarem a cara e gritarem contra o preconceito!

 

 Veja aqui algumas canções feitas por artistas americanos contra o bullying e a favor da auto-estima e do direito à diferença.

 

Escrito por will robinson às 05h54
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18/07/2011


Em defesa do entendimento

A peça: Doze homens e uma sentença

Título original em inglês: Twelve angry men

Autor: Reginald Rose

Tradução: Ivo Barroso

Elenco: Norival Rizzo, ZéCarlos Machado, Oswaldo Ávila (substituindo o recém-falecido José Renato), Oswaldo Mendes, Gustavo Trestine, Riba Carlovich, Haroldo Ferrary, Ricardo Dantas, Brian Penido, Augusto César, Fernando Medeiros, Ivo Müller e Adriano Bedim

Direção: Eduardo Tolentino de Araújo

 

 

 

 

Doze homens e uma sentença é um texto que deveria ser matéria obrigatória nas escolas brasileiras, seja como texto para ser lido, seja em uma de suas versões filmadas (foi feito para o cinema em 1957 com Henry Fonda e direção de Sidney Lumet, a partir de um roteiro de televisão de Reginald Rose, e refeito para a televisão americana em 1997, com Jack Lemmon e George C. Scott), ou visto no teatro como nessa excelente montagem em cartaz em São Paulo somente até o final de julho. Por que digo isso? Por que estamos vivendo em época tão conturbada, com tantas demonstrações de preconceito e intolerância sendo confundidas com liberdade de expressão, intolerância essa que vem se manifestando desde cedo entre crianças e adolescentes em forma de bullying, que algo precisa ser feito urgentemente para que voltemos a nos comportar como seres civilizados.

 

A peça se passa em tempo real, mostrando a reunião de doze jurados, todos homens e brancos (pois se passa nos machistas e racistas Estados Unidos dos anos 50), que precisam decidir se um adolescente acusado de matar o próprio pai é culpado ou inocente. Pela lei a decisão deve ser unânime, e onze dos jurados já chegam à sala de discussão com sua opinião formada e convictos da culpa do rapaz, ansiosos por se livrar logo de um dever cívico que todos afirmam reconhecer como importante mas que nenhum deles pediu. Só que um dos jurados, que são identificados apenas por números, afirma que tem dúvidas sobre a culpa do garoto -- e como a lei exige que o veredito de culpado seja dado apenas caso não haja dúvida razoável, parte-se para uma acirrada discussão sobre a culpa ou a inocência do réu.

 

A discussão está muito longe de ser civilizada, pois logo afloram os preconceitos e pré-julgamentos que levam cada um daqueles homens a formar a opinião que têm. O réu, a vítima e as testemunhas são todos moradores de um cortiço, o que leva muitos dos jurados a demonstrar seus preconceitos de classe. Também há uma sugestão não explícita de racismo, embora nunca se afirme que o réu seja negro, quando um dos jurados se exalta e grita algo como "Precisamos acabar com eles antes que acabem com a gente!" Neste momento todos os outros personagens se colocam de costas para o racista, mesmo aqueles que acreditam na culpa do rapaz, numa demonstração de que mesmo em meio a um debate acirrado e apaixonado, não compartilham daquela visão de mundo que divide a humanidade entre "nós" e "eles".

 

Aliás a direção de atores, a cargo do experiente Eduardo Tolentino de Araújo, do famoso Grupo Tapa, é uma das melhores coisas dessa montagem. Com um elenco de atores de idades e perfis diferentes, um cenário que se resume a uma mesa e algumas cadeiras, o diretor imprime ao espetáculo um ritmo e uma movimentação cênica que não deixam nunca a bola cair, colocando-se no mesmo nível do texto afiado.Uma peça imperdível e emocionante para quem ainda acredita no valor do debate e da troca de ideias como ponte para um entendimento entre os diferentes.

 

 

Escrito por will robinson às 22h11
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24/03/2011


Para sempre Liz

Alguns astros se tornam mitos porque vivem intensamente, morrem cedo e deixam eternizada sua juventude, tornando-se assim, como vampiros, para sempre jovens e belos: é o caso de James Dean e Marilyn Monroe. Outros optam por se retirar de cena no auge, deixando-se envelhecer longe dos holofotes, para que a imagem a ser eternizada, essa sim mantenha a sua beleza eterna: foi a opção de Greta Garbo. Há outros ainda que, tendo sido deuses da beleza, não têm vergonha de mostrar na tela sua decadência física, a queda dos cabelos, o acréscimo de gordura no corpo, as rugas no rosto, porque sabem que seu talento é maior do que tudo isso: foi o que fez Marlon Brando.



Paul Newman e Liz Taylor em Gata em teto de zinco quente


E há ainda aqueles raros privilegiados que envelhecem com graça e elegância e mantêm o charme, a chama e o talento até o final. Foi o caso de Paul Newman, foi também o caso de Elizabeth Taylor. Tendo sido uma das mulheres mais deslumbrantes da história do cinema, mesmo em suas últimas aparições públicas, fragilizada pelos inúmeros problemas de saúde e pelos excessos de sua vida atribulada, mesmo inchada, envelhecida e presa a uma cadeira de rodas, bastava olhar para aqueles olhos cor de violeta para ver as faíscas que demonstravam a existência da chama interna, uma chama que nunca se apagou.


Liz como Cleópatra

Há muitos filmes memoráveis em seu currículo, há muitas cenas inesquecíveis, há muitas personagens fascinantes para dar conta de lembrar em apenas algumas linhas. Vou citar então uma única cena que ficou marcada em minha memória: a cena em que Cleópatra, no filme de Joseph L. Mankiewicz, recebe o imperador romano Marco Antonio em seu palácio, vivido pelo igualmente intenso e inesquecível Richard Burton, o grande amor de sua vida, e ordena a ele que se ajoelhe. Quando o poderoso conquistador se recusa, ela diz, imponente: "A Julio César eu pedi que se ajoelhasse. De você eu exijo. De joelhos, é uma ordem!" E diante daqueles olhos violeta faiscando de cólera e autoridade, é claro que Marco Antonio e todo seu séquito se ajoelham feito cordeirinhos.


Richard Burton e Liz Taylor em Quem tem medo de Virginia Woolf?


Foi ao lado de Burton que ela fez aquele que é provavelmente seu grande papel, pelo qual ganhou seu segundo Oscar e pelo qual será eternamente lembrada não apenas como a mulher de beleza perfeita, mas também como grande atriz: a Martha de Quem tem medo de Virginia Woolf?, filme de Mike Nichols baseado na peça de Edward Albee, em que Liz, aos trinta e poucos anos, interpreta uma mulher de seus cinquenta e poucos, alcoólatra e amargurada. Fiquei chocado quando descobri que esse filme foi feito na mesma época que A megera domada, texto de Shakespeare dirigido por Zeffirelli, em que Liz e Burton estão ambos no auge da beleza e em plena forma. Não se tratava na época, como não se trata hoje, de "ficar feia" para conseguir seu Oscar, como tantos críticos engraçadinhos se apressam a rotular tantas atrizes, mas de usar maquiagem, figurinos e mesmo a transformação do corpo a serviço do talento e do perfeito entendimento do que o personagem pede, pois sem isso de nada serviriam os recursos materiais.


James Dean, Liz Taylor e Rock Hudson no set de Assim caminha a humanidade



Inesquecível e eterna Liz: se existe um paraíso, com certeza ele estará em festa hoje, pois seus amigos Montgomery Clift, Rock Hudson, James Dean, Michael Jackson, e mesmo seus amores, com Richard Burton à frente, estarão vestidos a caráter para uma grande celebração hollywoodiana, à qual você fará questão de convidar também as inúmeras pessoas que ajudou com sua luta contra a Aids e contra a discriminação. E obrigado por ter existido!


Liz Taylor e Montgomery Clift em Um lugar ao sol


Michael Jackson interpreta Elizabeth, I love you, em homenagem à sua grande amiga


P.S.: Leia também a inteligente e emocionante homenagem do Vitor Angelo em seu Blogay.

 

Escrito por will robinson às 02h13
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05/03/2011


A loira virou mito, mas a morena também era inesquecível

Apesar de ter estrelado mais de duas dezenas de filmes, a maioria nos anos 40 e 50, Jane Russell será eternamente lembrada por apenas dois deles: o primeiro, O proscrito (The outlaw, 1943), mais pela controvérsia que causou que por sua qualidade; e principalmente Os homens preferem as loiras (Gentlemen prefer blondes, 1953), ao lado da mítica Marilyn Monroe.

 

 

 

O proscrito entrou para a história como um dos dois únicos filmes dirigidos pelo excêntrico milionário-aviador-cineasta Howard Hughes (interpretado por Leonardo di Caprio no ótimo O aviador, de Martin Scorcese). Hughes era prolífico produtor de cinema, mas como diretor assinou apenas o drama de guerra Hell's Angels (1930) e o western O proscrito, este depois de ter brigado com o diretor original, Howard Hawks (o mesmo que mais tarde dirigiria Os homens preferem as loiras). O proscrito, que mostra os personagens históricos Billy the Kid (Jack Buetel), Pat Garrett (Thomas Mitchell) e Doc Holliday (Walter Huston) numa história fictícia, na qual a amizade entre eles é perturbada pela misteriosa Rio (Russell), já nasceu envolto em polêmica. Isso porque finalizado em 1941, o filme demorou dois anos para estrear devido à implicância da censura com os closes generosos no decote de Jane Russell, que segundo consta foi escolhida para o filme em função de seus atributos físicos. Durante esses dois anos de espera Hughes aproveitou para divulgar o filme fazendo sua estrela viajar por todo o país e espalhando a história de que ele teria pessoalmente criado um revolucionário sutiã a fim de ressaltar os fartos seios de sua protagonista. Na verdade, Jane revelou em sua autobiografia que jamais usou o tal sutiã, desconfortável demais, embora nunca tivesse dito isso a seu diretor.

 

Tanta implicância com os seios de Jane Russell, no entanto, deve ter desviado a atenção da censura da verdadeira polêmica que envolvia o filme. Qualquer um que saiba ler nas entrelinhas percebe rapidamente o subtexto homoerótico do filme. O verdadeiro triângulo amoroso que existe aqui é entre os dois veteranos cowboys e o belo jovem vivido por Buetel. A personagem de Jane é maltratada o tempo todo pelos personagens masculinos, chegando em algumas cenas a parecer vítima de um ritual sado-masoquista. Segundo o biógrafo de Howard Hughes, Charles Higham, contou no livro "O aviador" (o mesmo usado por Scorcese como base para seu filme), o diretor era bissexual e manteria um relacionamento com o jovem Buetel, o qual não prosseguiu na carreira de ator, e o roteiro de O proscrito nada mais seria que o desenvolvimento de uma fantasia sexual de Hughes.

 

Jane Russell e Jack Buetel

 

Depois de se livrar de um contrato com Hughes que a impediu durante vários anos de fazer outros papeis, Russell já tinha se tornado uma estrela quando filmou Os homens preferem as loiras, enquanto Marilyn Monroe era ainda um nome em ascensão na indústria do cinema. É famosa a história em que Marilyn, ao saber que sua parceira de cena ganharia muitas vezes mais que ela, embora ambas fossem protagonistas, teria dito: "Mas o filme se chama Os homens preferem as loiras, e EU sou a loira!" De qualquer forma, esse foi o filme que catapultou a carreira de Marilyn diretamente para o estrelato, principalmente devido à famosa cena em que canta Diamonds are a girl's best friends, de Jule Styne e Leo Robin, certamente uma das cenas musicais mais famosas e imitadas de todos os tempos. O que poucos que não viram o filme sabem é que Jane Russell também cantava a mesma canção no filme, numa cena em que imitava a personagem de Marilyn (e que você pode ver aqui). O mais interessante é que tendo tudo para se tornar rivais, as duas atrizes foram na verdade grandes amigas. Os biógrafos de Marilyn são unânimes em revelar que era Jane Russell quem frequentemente conseguia convencer a colega, que sofria de crônica insegurança, a deixar o trailer e entrar em cena.

 

Marilyn e Jane ao eternizar seus nomes na calçada da fama em Hollywood

 

Jane Russell em sua melhor cena de Os homens preferem as loiras, em que canta Anyone here for love?, de Hoagy Carmichael e Harold Adamson, em meio a uma equipe de nadadores olímpicos seminus -- os quais parecem completamente indiferentes à deusa!

 

Depois de deixar o cinema, Jane Russell se tornou uma devota cristã e uma republicana conservadora convicta, mas gostava de ressaltar: "Conservadora sim, racista nunca!" De qualquer forma, deixou sua marca como uma das mulheres mais sensuais da história do cinema; uma pena que como muitas estrelas que se destacaram primeiro pela beleza, tenha sido subestimada como atriz, embora tivesse também muito talento.

 

Descanse em paz, Jane Russell.

 

Jane Russell e Marilyn Monroe interpretam Two little girls from Little Rock, de Jule StyneLeo Robin, na abertura de Os homens preferem as loiras

 

Escrito por will robinson às 02h20
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27/02/2011


Entrevista inédita com Caio F.

O escritor: Caio Fernando Abreu

Nascido em Santiago, Rio Grande do Sul, em 12 de setembro de 1948

Falecido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 25 de fevereiro de 1996

 

 

"Os homens precisam da ilusão do amor assim como precisam da ilusão de Deus, pra não afundar no poço horrível da solidão absoluta, pra não se perder no caos da desordem sem nexo."

(Caio Fernando Abreu, musicado por Laura Finocchiaro -- Necessidade)

 

Em 1992, eu era estudante de jornalismo na Fundação Cásper Líbero, em São Paulo, quando faleceu o poeta Péricles Eugênio da Silva Ramos, que era professor da faculdade mas que eu não cheguei a conhecer. Em homenagem a ele, um de meus professores planejou uma edição especial do jornal da faculdade voltado para a literatura, e pediu que entrevistássemos escritores famosos. Meu primeiro pensamento foi tentar um contato com minha autora favorita, Lygia Fagundes Telles, que já tinha conhecido anteriormente num evento literário (outro dia conto essa história aqui), mas como não consegui contatá-la naquela ocasião pensei então em outro de meus autores favoritos, o gaúcho Caio Fernando Abreu, cuja obra me acompanha desde a adolescência, quando o jovem confuso quanto à sua sexualidade procurava encontrar nos livros, já que não podia confiar nas pessoas, alguma resposta para suas inúmeras perguntas. Não que Caio tivesse respostas para dar, muito pelo contrário: sua obra, como a de qualquer artista que se preze, tem mais perguntas que respostas. Mas em seus livros pude encontrar personagens com quem me identificar, não necessariamente por serem gays, embora isso também contasse e muito para um adolescente em busca de referências, mas sim por serem almas atormentadas, cheias de conflitos, buscando alguma transcendência nesse caos que chamamos vida.

 

Do meu trabalho, liguei para a editora que tinha publicado seu último livro, o sensacional romance Onde andará Dulce Veiga (recentemente transformado em filme por Guilherme de Almeida Prado, com Maitê Proença, Carolina Dieckman e Eriberto Leão nos papéis principais). A pessoa que me atendeu foi super-atenciosa e em questão de minutos me pôs em contato com o próprio Caio, de modo que naquele mesmo dia saí do trabalho e me dirigi ao apartamento onde ele morava nos Jardins para entrevistá-lo. Ele me recebeu com muita cordialidade, embora não fosse exatamente uma pessoa muito sorridente, mas era muito gentil. Estava assistindo uma entrevista com Jorge Amado e quando perguntei se não queria esperar o fim do programa, ele me respondeu com seu senso de humor peculiar: "Não, eu já sei tudo que ele vai dizer mesmo."

 

Embora eu fosse apenas um jovem estudante querendo uma entrevista para o jornal-laboratório da faculdade, o escritor me tratou como um profissional, respondendo todas as minhas perguntas com objetividade e sem frescuras. Ouviu com paciência meus protestos de admiração e amor por sua obra, autografou meus livros preferidos -- o romance Onde andará Dulce Veiga, que ele comentou ter lhe dado um trabalho insano; o livro de contos Os dragões não conhecem o paraíso, de onde é tirada a citação que abre esse post; e o inesquecível Triãngulo das Águas, o qual contém três novelas, das quais "Pela noite", que narra o reencontro entre dois amigos de infância e o jogo de sedução que se estabelece entre eles, é uma das histórias mais memoráveis sobre um encontro de duas almas solitárias que se desejam mas têm medo de se conectarem que já li na minha vida; e ainda teve a bondade de concordar comigo quando disse que a canção Olhos vermelhos, de Guilherme Arantes, me fazia lembrar justamente a atmosfera dessa história. Ele ainda comentou que a atriz Regina Duarte gostava tanto de Pela noite que tinha lhe pedido para fazer uma adaptação teatral para duas atrizes, coisa que o próprio Caio, e eu concordo, achava quase impossível, pois a novela é uma história de amor entre dois homens, com todas as particularidades físicas e psicológicas que há numa relação desse tipo.

 

Uma das perguntas que fiz que não entraram na edição final foi por que a revista Veja tinha tanta implicância com ele a ponto de mencionar o nome dele, por exemplo, numa matéria sobre a Floresta Amazônica (ou seja, que não tinha nada a ver com literatura), usando uma metáfora do tipo: "É verdade que em meio à riqueza e à diversidade da Amazônia pode haver coisas tão inúteis quanto a literatura de Caio Fernando Abreu..." Ele respondeu simplesmente, "Eles sabem que não leio mais a Veja depois do que fizeram com Elis Regina na morte dela."

 

A certa altura ele reclamou de dores e vômitos que associava ao medo de criar, mas em retrospecto acredito que talvez já fossem os primeiros sintomas da Aids que lhe tiraria a vida alguns anos depois. Caio tinha uma coluna semanal no jornal O Estado de São Paulo e através dessas crônicas revelou ao público o diagnóstico da doença e todas as mudanças que ela provocou em sua vida, como voltar a morar com os pais em Porto Alegre e se dedicar à jardinagem, hobby que narrava com detalhes em suas crônicas.

 

No último dia 25 de fevereiro completaram-se 15 anos de sua morte. Em sua homenagem publico aqui uma edição da entrevista que fiz com ele, que afinal nunca foi publicada (a tal edição especial do jornal-laboratório nunca saiu) e cuja transcrição completa se perdeu, portanto essa edição que fiz na época é o único registro que restou de nossa conversa e permanecia inédito -- até agora.

 

will robinson - Você trata de questões muito polêmicas em seus livros, como homossexualismo, drogas, suicídio, Aids. Você pensa na reação do leitor, se ele vai ficar chocado ou não?

 

Caio Fernando Abreu - Não, não penso. Eu sou uma pessoa super-informada, e eu escrevo sobre esse mundo contemporâneo, real, que a gente vive. Se ele é feito de coisas violentas é a pura realidade, e se alguém se chocar com o real eu sinto muito, é uma atitude hipócrita. Eu sempre penso que literatura, no Brasil, é uma coisa meio dispensável. Como escritor você se sente socialmente inútil, não tendo nenhuma possibilidade de participar de uma melhora da situação social do país. Mas acho que o papel do escritor é registrar a realidade emocional contemporânea, e dessa forma não exatamente fotografar, mas retratar o seu tempo. Esse é o nosso trabalho social.

 

-- De onde você tira seus personagens e suas histórias?

 

-- Os personagens saem da observação de pessoas reais. A figura da Dulce Veiga em Onde andará Dulce Veiga, por exemplo, foi inspirada na Odete Lara, que foi a maior atriz do cinema brasileiro dos anos 50, e abandonou tudo para se tornar budista e viver num sítio. [Nota: Dulce Veiga era justamente o nome da personagem vivida por Odete Lara no filme A estrela sobe, de Bruno Barreto, onde interpretava a canção Nada além, de Mário Lago e Custódio Mesquita, como a Dulce Veiga do livro.] E outras personagens do livro, como a Márcia Felácio, eu me inspirei naquelas meninas que tinham um grupo de rock chamado As Mercenárias. Mas com muita liberdade, misturando com outras pessoas. Já as histórias, elas brotam, Wil, é uma coisa muito estranha, difícil de descrever. Podem vir de uma coisa que você observou numa praça, numa rua, numa casa... Mas depende, em geral as histórias me vêm muito subitamente. Para contar uma história é preciso cercar a ideia; depois que a primeira frase vem limpa, as palavras vêm. Mas as imagens precisam primeiro passar pelo filtro das palavras. Atualmente eu estou trabalhando num projeto de um livro chamado Malditas fadas, com reescrituras para adultos daqueles contos de Andersen. [Nota: o conto Sapatinhos vermelhos, publicado no livro Os dragões não conhecem o paraíso, acabou sendo a única experiência, que eu saiba, que ele concretizou nesse sentido.] Mas ultimamente eu tenho evitado ao máximo escrever porque eu passo mal, me dá dores na coluna, me dá vômito, eu sinto um desconforto físico muito grande, então eu tento fugir disso. Acredito que isso tem a ver com o medo de não conseguir dar forma às histórias, de não conseguir mais criar.

 

 

Maitê Proença como Dulce Veiga no filme de Guilherme de Almeida Prado

 

-- O que você acha da literatura que é feita hoje no Brasil?

 

-- Olha, eu acho muito desamparada a literatura brasileira. Um dos trabalhos que eu faço é dirigir oficinas de criação literária por todo o Brasil, e por esse contato real com os jovens eu sei que existe gente jovem querendo escrever e escrevendo muito bem. Mas as editoras não abrem as portas. Eu acho que na atual sociedade de consumo tudo tem que ser vendável. Então se você pinta um quadro, não importa se o quadro é muito bom, importa mais se você for nas vernissages, fizer caras exóticas para os fotógrafos, aparecer na coluna social, ter o seu nome falado. Quando eu comecei a escrever eu achava que a crítica poderia me ajudar a compreender melhor o meu trabalho. Mas o que eu fui vendo, como escritor e como jornalista, é que é tudo sempre muito viciado, muito mau-caráter. Então elogia-se um livro porque o editor é amigo do escritor, ou comeu a mulher dele, é horrível isso, é muito humilhante. Quer dizer, o que eu vejo é uma super-valorização da superfície, da aparência, e não do trabalho, e isso é uma característica do nosso tempo muito lamentável.

 

 

 

"E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, no tão íntimo, mas tão íntimo, que de repente a palavra "nojo" não tem mais sentido? (...) O amor só acontece quando a gente aceita que também é bicho."

(Caio Fernando Abreu, trecho de Pela noite transformado em canção por Laura Finocchiaro como Amor Nojento)

 

 

Como não há vídeos das canções que Laura Finocchiaro musicou com base em textos de Caio, publico aqui outra canção dela, Link, em parceria com Leca Machado, disponível no cd Oi, o mesmo que contém as canções Necessidade e Amor nojento.

 

Escrito por will robinson às 05h02
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27/01/2011


Bombas ambulantes

O filme: O primeiro que disse
Título original em italiano: Mine vaganti (Itália, 2010)
Roteiro: Ivan Cotroneo, Ferzan Ozpetek
Produção: Domenico Procacci
Direção: Ferzan Ozpetek




Tommaso (Riccardo Scamarcio) retorna à casa dos pais para um jantar da família com os sócios em uma fábrica de massas, e antes do jantar confessa ao irmão mais velho, Antonio (Alessandro Preziosi), que pretende fazer uma tripla revelação nesse jantar: primeiro que em Roma, onde mora, não estudou Adminsitração como pensava o pai (Ennio Fantastichini), e sim Letras; segundo que não tem a menor intenção de se juntar ao irmão no negócio da família, pois pretende ser escritor; e terceiro que é gay e mora com seu namorado, Marco (Carmine Recano). Evidentemente ele sabe que a terceira revelação é a mais bombástica e até torce para que ela provoque sua expulsão de casa, a fim de facilitar suas outras decisões. Mas na hora do jantar, qual não é a sua surpresa quando o irmão toma a palavra e revela que é gay e é perdidamente apaixonado por um ex-empregado da fábrica, chamado Michele (lê-se Miquele). O pai imediatamente expulsa o filho mais velho de casa e logo em seguida enfarta, para desespero de Tommaso, obrigado a permanecer no armário por mais tempo do que planejava.



Mine vaganti, título original do filme, é o plural em italiano de "mina vagante", que literalmente significa algo como "bomba ambulante", apelido dado pela família à avó de Tommaso (Ilaria Occhini), a qual guarda um segredo sobre seu passado que a torna uma das personagens mais interessantes desse filme lindo, a um tempo romântico, engraçado, dramático e emocionante, como a vida. Mas bombas ambulantes são todos os personagens, desde os dois filhos gays até o pai moralista e hipócrita, a mãe resignada e submissa (Lunetta Savina), a tia solteirona e alcoólatra (Elena Sofia Ricci) e a sócia e amiga Alba (Nicole Grimaudo), que se apaixona por Tommaso. No entanto, um dos personagens que mais me interessaram nunca aparece, a não ser por um breve momento numa foto: é Michele, o namorado rejeitado por Antonio, despedido da fábrica para que o rapaz não se tornasse alvo de fofocas e perdesse o apoio da família. Quando Antonio se encontra com o irmão pela primeira vez depois de ser expulso pelo pai, ele diz que a primeira coisa que fez foi procurar Michele, para pedir-lhe perdão e contar o que tinha feito, mas o ex-amante não o quis de volta, dizendo que era tarde demais.



Fiquei tão tocado por essa história que decidi dar voz a esse personagem tão ausente e tão presente no filme. Leia a seguir como eu imaginei a reação de Michele quando Antonio vai procurá-lo.

 

Escrito por will robinson às 06h10
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Cry me a river

"Now you say you're lonely
You cried the whole night through
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you

Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you"
(Arthur Hamilton, Cry me a river)

 

Alessandro Preziosi

 

MICHELE: Antonio, meu querido... fico feliz, sim, fico muito feliz em te ver, em ouvir sua história, saber que finalmente conseguiu se abrir, conseguiu sair de sua concha. Estou vendo em seus olhos o seu alívio, imagino o peso que você deve ter tirado de cima dos ombros.

Mas sabe o que também me deixa feliz? É olhar pra você e não sentir nada do que eu sentia antes. Quanto eu te vi pela primeira vez, Tom, meu coração disparou. Pensei, que homem é esse, meu senhor! Que deus, alto desse jeito, com esses olhos da cor do oceano profundo... Mas nunca pensei que você fosse se interessar por mim, você, o filho do patrão, o chefe, o príncipe, e eu um simples operário... Mas você olhou pra mim, e quando percebi seu interesse, meu Deus! Que felicidade! Como fui feliz com você, Tom, como te amei, como esperava ansiosamente por aqueles momentos em que podíamos estar a sós, quando podíamos ser nós mesmos, sem medo de que os outros soubessem, que descobrissem...

Por você eu fingia, Tom, eu me escondia, eu te tratava como chefe na frente dos outros, embora a minha vontade fosse gritar a todo mundo que você era meu e de mais ninguém! Mas o seu medo era mais forte que o seu amor, Tom, e você me despediu, me mandou pra fora da cidade, montou casa pra mim como se eu fosse uma puta, a sua amante exclusiva. E eu aguentei tudo, até tentei me enganar pensando que o proibido era mais gostoso, que esse segredo todo ia até apimentar nossa relação. E quando eu estava em seus braços, esquecia do mundo, esquecia de tudo, e vivia para aqueles momentos!

Só que aqueles momentos foram ficando cada vez mais raros, né meu amor? Eu não queria só transar com você, eu queria dormir a seu lado e acordar a seu lado, eu queria preparar café pra nós dois de manhã, eu queria passear com você na praia, ver o pôr do sol abraçados, mas você nunca estava disponível, lembra? Você sempre tinha que voltar correndo pra sua maldita casa, pra que sua maldita família não desconfiasse de nada!

E então eu fiquei doente, Tom, tive que fazer aquela operação, e no momento que eu mais precisava de você, quando eu mais precisava do homem que eu amo do meu lado, segurando a minha mão e dizendo "Não tenha medo, tudo vai dar certo", onde é que você tava, hein, Tom? Naquela maldita fábrica, que você não podia deixar naquele momento, lembra? E por que você não podia sair de lá quando eu mais precisei de você, mas saiu agora e me aparece aqui com essa cara de felicidade, essa cara de quem tirou um peso das costas? Por que você não podia ter tirado esse peso das costas antes, hein, Tom?

Sim, eu sei, já ouvi a sua história, que você ficou com inveja do seu irmão, da coragem dele, você já me contou tudo isso. Eu só acho engraçado como você não percebe o quanto está sendo egoísta, né Antonio? Egoísta você sempre foi, você nunca pensou em mim, nas minhas necessidades, só em você, na fábrica, na família... Mas agora tô vendo que nem pra sua família você liga de verdade, se você foi capaz de fazer isso com seu próprio irmão, acabar com os planos dele só pra se dar bem... Mas agora é tarde, Antonio, você achou que eu ia ficar aqui esperando por você pra sempre? Eu tava falando sério quando disse que acabou, Antonio, e olha que foi difícil, foi muito difícil tirar você daqui de dentro! (Bate a mão no peito, apontando o coração.) Sabe aquele documentário que a gente viu uma vez, com o médico falando que tirar uma faca de uma pessoa esfaqueada era até mais perigoso que a própria facada? Que podia doer muito mais? Pois foi isso que senti, Tom, tentando tirar você daqui de dentro. Mas eu consegui, Antonio, e só agora tenho certeza disso, porque tô olhando pra você e não tô mais sentindo o coração bater acelerado, não tô mais sentindo aquela vontade de te agarrar, te beijar como eu tinha antes. Não tenho nem mesmo raiva de você, Antonio, nem mágoa. Tudo que a gente passou, de bom e de ruim, vai ficar comigo pra sempre, mas agora eu olho pra você e sinto assim um afeto, como aquele afeto que a gente tem por alguém que já foi muito importante na nossa vida mas agora é só uma lembrança. Sinto alegria por você, por te ver assim tão leve, e um pouco de pena também, por tudo que poderia ter sido e não foi. Mas não te quero mais do meu lado, Tom. Tarde demais, meu querido.

Você tá chorando, Tom? (Começa a gargalhar sem parar, a ponto de lacrimejar. Quando consegue se controlar, diz:) Desculpa, Tom! Foi mal! Eu não estou feliz por te ver sofrer, meu querido, não é isso! Mas é que se você soubesse o quanto eu já chorei por você... Lembra daquela música que você cantava no chuveiro, Cry me a river? Aí você me ensinou a tradução, dizendo que a mulher estava feliz de ver o cara chorando rios de lágrimas por ela, porque antes ela já tinha chorado rios por causa dele? Pois foi isso que lembrei agora, por isso estava rindo...  Desculpa, vai... Espera, Tom, não precisa ir embora assim, no meio da noite, dorme aqui na sala, amanhã de manhã você procura um lugar pra ficar! Pô, espera, Tom, a gente ainda pode ser amigo, vai!

A porta bate. Michele se senta e... chora.

 

Cry me a river na interpretação de Michael Bublé.

 

Escrito por will robinson às 05h57
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30/12/2010


Poeira ao vento

O filme: A rede social

Título original em inglês: The social network (EUA, 2010)

Roteiro: Aaron Sorkin, baseado no livro Bilionários por acaso: a criação do Facebook (The accidental billionaires: the founding of Facebook) de Ben Mezrich

Produção: Dana Brunetti, Ceán Chaffin, Michael DeLuca, Scott Rudin

Direção: David Fincher


 


"I close my eyes, only for a moment, and the moment's gone
All my dreams, pass before my eyes, a curiosity
Dust in the wind, all they are is dust in the wind."

(Kerry Livgren, Dust in the wind)


Fui assistir o tão comentado filme A rede social (The social network) essa tarde. Como todos já devem saber a essa altura, trata-se da biografia não-autorizada de Mark Zuckerberg (interpretado no filme por Jesse Eisenberg), criador do Facebook, mais jovem bilionário do mundo e o homem do ano de acordo com a revista Time.



O filme é ótimo, mas não vou me estender muito sobre ele. Queria mais é compartilhar algumas reflexões que tive a caminho do cinema. Explicando melhor: fui ver o filme no cine Iporanga State of the art, no Shopping Pátio Iporanga, inaugurado há um ano no local do antigo cine Iporanga, aqui em Santos. O shopping fica no coração do Gonzaga, bairro badalado do município, na avenida Ana Costa, num trecho que antigamente era conhecido como Cinelândia por concentrar praticamente todos os cinemas da cidade, e onde hoje resiste bravamente o cine Roxy, transformado em multiplex, e e esse novo Cine Iporanga.


Para chegar ao shopping passei pela rua Tolentino Filgueiras, uma travessa da av. Ana Costa onde fica a lateral do shopping e a saída de seu estacionamento. Bom, acontece que nessa rua havia uma escola de idiomas onde comecei minha carreira de professor de línguas, dando aulas de inglês, francês e português para estrangeiros. A escola era inicialmente uma franquia do Yázigi, depois saiu da franquia e passou a se chamar Passport Idiomas. Funcionava num antigo sobrado em forma de chalé, ao lado de uma escola de educação infantil. Trabalhei lá por sete anos. Hoje há um enorme prédio residencial de luxo no lugar das duas escolas.


Nessa escola trabalhava uma professora mais velha, chamada Maria Helena, que morava na mesma rua, numa linda casa adornada por um belo jardim. Eu, que nessa época morava também perto dali e passava diariamente na frente da casa dela para ir à escola, sempre via um senhor pela larga janela de vidro numa ampla sala que parecia ser uma biblioteca. Nunca entrei lá, não tinha tanta intimidade assim, mas sabia que Maria Helena cuidava dos pais idosos e doentes, e até onde sei não era casada nem tinha filhos.


Ela tinha uma aparência austera, estava sempre de óculos e fumando seu cigarro entre uma aula e outra, e inclusive durante as reuniões, o que me irritava profundamente (bendita seja a lei anti-tabagismo). Certa vez eu conversava com minha amiga Sueli, secretária da escola, que era uma pessoa bastante namoradeira e gostava de falar de suas paqueras, quase sempre com homens mais jovens, quando Maria Helena, que ouvia nossa conversa fumando seu cigarro, interrompeu nossas risadas para dizer:


__ Certa vez namorei um rapaz bem mais jovem. Foi uma paixão avassaladora.


Disse isso e voltou a dar suas baforadas, como que perdida em suas lembranças, enquanto Sueli arregalava os olhos e eu deixava cair o queixo.


Fast forward: Muitos anos depois reencontrei Maria Helena naquela mesma região. Eu, morador de São Paulo, visitando meus pais, que ainda moravam ali perto. Ela já não morava naquela casa bonita, que tinha virado uma escola de inglês onde a própria já havia trabalhado, embora contrariada com as mudanças impostas a seu antigo lar. A escola onde nos conhecêramos há muito já não existia e seus pais já haviam falecido. Assim que bati os olhos nela percebi que estava bastante debilitada, e ela mesma me contou que estava se tratando de um câncer. Muito magra e abatida, caminhava com extrema dificuldade, mas continuava a dar aulas particulares. No entanto, não tinha perdido o jeito seco e meio bruto. Assim que me viu, muitos quilos mais gordo do que na época em que trabalhávamos juntos, me perguntou de supetão: "Mas como você engordou! O que você fez pra ficar gordo desse jeito?" Eu, que não gosto de levar desaforo pra casa, certamente teria dado uma resposta malcriada se não fosse o choque que senti ao vê-la tão frágil. Em vez disso, perguntei por sua saúde e ela respondeu com a mesma objetividade com que sempre falava, sem nem um traço de auto-piedade ou algo parecido. Foi a última vez que a vi. Há algum tempo recebi a notícia de seu falecimento, através de uma colega com quem ambos trabalhamos e que Maria Helena considerava quase como a filha que não teve. A notícia, aliás, me foi dada via Facebook.




Ao passar nessa rua hoje, a caminho do cinema, descobri que a casa onde ela morava foi demolida, juntamente com outras casas vizinhas, para a construção de um prédio. Pensei com certa melancolia que agora já não existe mais a casa onde ela morava, nem a escola onde nos conhecemos, nem os pais de quem ela cuidava, nem o meu próprio pai, nem a própria Maria Helena...




O filme A rede social tenta passar a ideia de que o Facebook foi criado, no fundo, porque Zuckerberg se sentia rejeitado tanto pelas garotas com quem ele não sabia lidar quanto pelos alunos mais ricos, mais atléticos e mais populares da universidade. Sem conseguir entrar nos seletivos clubes elitistas do local, ele então teve a sacada de construir uma rede social via internet que funcionasse como um clube, onde cada um escolheria aqueles com quem gostaria de se relacionar, inclusive com fins sexuais, obviamente.


Mas minhas reflexões me levaram a pensar que há muito mais do que solidão ou inadequação social entre os motivos do sucesso do Facebook e de tantas outras redes sociais. Talvez exista também uma certa vontade de permanência num mundo efêmero, de deixar uma marca, como os que rabiscavam numa pedra ou numa árvore "Fulano esteve aqui". Por que quando morre alguém jovem, alguém que tinha perfil na Internet, sua página recebe imediatamente inúmeros recados e mensagens póstumos? É uma maneira de continuar se conectando com alguém que já não está aqui, e talvez não seja exagero achar que cada um de nós, ao postar num blog, numa rede social, no Twitter ou algo equivalente, está também deixando um canal que vai continuar existindo por muito tempo mesmo depois que nós mesmos não estivermos mais aqui.


Pó, poeira ao vento. Todos somos apenas poeira ao vento...


"Dust in the wind, all we are is dust in the wind
Dust in the wind, everything is dust in the wind."

(Kerry Livgren, Dust in the wind)

 


 

Dust in the wind interpretada pela banda Kansas em versão acústica.

 

Escrito por will robinson às 04h07
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17/12/2010


That's life...

Acabo de receber a notícia do falecimento do grande diretor Blake Edwards. Amanhã os jornais terão páginas e páginas dedicadas ao seu talento como diretor de comédias, incluindo a série da Pantera Cor-de-Rosa com Peter Sellers, e com certeza mencionando também aquele que é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany's), com Audrey Hepburn e George Peppard. Também mencionarão alguns dos filmes que fez com sua mulher, a grande atriz e cantora Julie Andrews, entre os quais provavelmente o mais famoso seja Vitor ou Vitória (Victor/Victoria), mais tarde transformado em musical da Broadway.

 

 

 

Mas acho difícil que alguém se lembre de um filme intimista e autobiográfico que fez também com Julie e com o igualmente grande Jack Lemmon nos anos 80, chamado Assim é a vida (That's life!). Este era um filme em tom agridoce, falando de vida e morte, não à toa num período em que o grande diretor sofreu com a depressão. Pois são filmes assim que me interessam e ficam na memória -- por motivos fáceis de deduzir para quem ler o post anterior.

 

 

 

Descanse -- finalmente-- em paz, doce e amargo Blake Edwards.

 

 

 

Escrito por will robinson às 04h55
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I don't love New York. I just like it as a friend.

"Mas difícil é continuar vivendo. Eu continuo. Não sei se gosto, mas tenho uma curiosidade imensa pelo que vai me acontecer, pelas pessoas que vou conhecer, por tudo que vou dizer e fazer e ainda não sei o que será…"

(Caio Fernando Abreu)

 

"Ninguém quer a morte, só saúde e sorte..."

(Gonzaguinha)

 

Hoje em dia é moda repetir "Amo a vida", "Sou apaixonado pela vida", "Acordo de manhã feliz por estar vivo", etc. E quem disser o contrário é logo encaminhado para um psiquiatra e medicado com Prozac ou algo semelhante, pois não pode ser normal alguém que não ama a vida.

 

Já tive meus dias de desejar não estar vivo, já fui encaminhado a um psiquiatra por causa disso e hoje conto com a valiosa ajuda da fluoxetina pra conseguir levantar da cama de manhã. Mas me recuso a aderir ao clichê do "amor à vida" acima de tudo. Como posso amar algo que pra mim não tem sentido?

 

Sabe aquela pessoa com quem você é obrigado a conviver, seja no trabalho, seja por que faz parte da família ou por qualquer outro motivo? Alguém que você não escolheu para estar do seu lado, mas está lá e não tem outro jeito. Tem dias que você não suporta nem olhar na cara da pessoa, já outros dias, quando os dois estão de bom humor, vocês até conseguem bater um papo agradável, e de repente chegam até a dar risada e se divertir juntos. Mas na maior parte do tempo um vai aturando o outro, porque não tem outro jeito, e a gente acaba se acostumando àquela companhia que nem sempre é desejada mas está sempre presente.

 

Pois é...

 

Escrito por will robinson às 04h28
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24/10/2010


Eu ainda não aprendi

A peça: Ensina-me a viver
Título original em inglês: Harold and Maude
Autor: Colin Higgins, baseado em seu próprio roteiro para o filme de mesmo nome, produzido por ele mesmo e por Charles B. Mulvehill, dirigido por Hal Ashby em 1971
Tradução: Millôr Fernandes
Produção: Arlindo Lopes, Glória Menezes e Maria Siman
Elenco: Glória Menezes, Arlindo Lopes, Stella Maria Rodrigues, Antonio Fragoso, Fernanda de Freitas, Verônica Valentim, Guilherme Siman, Walisson Souza e Jamil Maurício
Adaptação e direção: João Falcão



Assisti o filme Ensina-me a viver (Harold and Maude) na televisão, quando era ainda bem jovem, e lembro de ter gostado muito da história, mas jovem como era tinha dificuldade em aceitar que o baby-face Bud Cort pudesse se apaixonar por uma velha como Ruth Gordon, talvez porque já tinha visto O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby, de Roman Polanski) em que a grande atriz vivia uma adoradora do demônio. Lembro também que no teatro os papéis foram feitos por um Diogo Vilela em início de carreira e pela francesa Henriette Morineau, que ficou doente no meio da temporada e foi substituída por Maria Clara Machado. Depois que Madame Morineau se recuperou, as duas atrizes ficaram se alternando no papel principal. Eu era muito novo pra ver a peça, mas lembro que o Fantástico fez uma reportagem mostrando cenas da produção brasileira com as duas atrizes, e mais uma vez o jovem will robinson ficou muito intrigado com a aparência, digamos, velha das duas veteranas senhoras que seduziam um rapaz adolescente no palco.



Nunca mais revi o filme, mas imagino que hoje, a meio caminho entre a juventude de Harold e a velhice de Maude, minha visão do casal seria completamente diferente. Porém, a remontagem da peça que assisti recentemente não tem qualquer dificuldade em convencer o espectador de que uma senhora de setenta e nove anos pode conquistar o coração de um jovem de dezoito, afinal o papel agora foi entregue a Glória Menezes, que aos 76 anos é ainda uma belíssima mulher, guardando os traços da jovem musa da televisão que no espetáculo aparece em projeções como se fosse a jovem Maude. Além disso, a veterana atriz tira de letra o papel de mulher idosa na idade mas jovem de espírito e jovial de agilidade física, a qual ensina o mórbido Harold (Arlindo Lopes), um rapaz oprimido pela mãe (Stella Maria Rodrigues) e obcecado pela morte, a descobrir a graça e a poesia da vida. Glória encontra em Arlindo Lopes um parceiro à altura. Apesar de na vida real já ter passado há tempos da adolescência (o ator tem surpreendentes 31 anos de idade), Arlindo, que também é produtor do espetáculo, passa com competência toda a fragilidade e carência do jovem Harold, um rapaz que só quer o que todos nós queremos: encontrar algum sentido e um pouco de amor nessa vida.



Sem querer parecer piegas, e talvez já sendo, preciso confessar que minha identificação com o personagem me levou a tal comoção que no final da peça tive de me refugiar no banheiro pra poder chorar mais um pouquinho. Agora quero rever o filme e ler o livro! Quem sabe assim a sábia Maude possa, também a mim, ensinar a viver.


Enquanto o filme original usava canções do grande Cat Stevens em sua trilha sonora, a produção da peça optou por usar músicas contemporâneas que, se não pertencem ao repertório da banda Beirut, se assemelham muito ao estilo da banda que gravou essa lindíssima canção chamada Elephant Gun, a qual não está na peça mas é tão bonita que eu quis colocá-la aqui, afinal o blog é meu e eu não tenho que ficar dando satisfações, falou?!

 

Escrito por will robinson às 03h03
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02/10/2010


Some like it Curtis

Quanto mais quente melhor, ou Some like it hot, obra-prima do diretor Billy Wilder, é uma das melhores comédias já produzidas em Hollywood. Como esquecer o galã Tony Curtis e o talentosíssimo e engraçadíssimo Jack Lemmon, travestidos de mulher, contracenando com ninguém menos que a mítica e maravilhosa Marilyn Monroe?

 

 

Pra quem não sabe, Curtis e Lemmon interpretam no filme dois músicos que sem querer testemunham um massacre perpetrado pela Máfia e para fugir dos bandidos são obrigados a se vestir de mulher e se integrar a uma banda feminina, onde Marilyn é a crooner. Enquanto o escrachado Jack Lemmon compõe uma dama igualmente escrachada, mas que mesmo assim consegue seduzir um velho assanhado (Joe E. Brown, que tem a melhor frase do filme, dita ao final, mas que se você não conhece vai ter que ver o filme pra saber qual é), o lindíssimo Tony Curtis, no auge da beleza e juventude, ao se vestir de mulher incorpora uma verdadeira lady, elegante e refinada, que faz biquinho ao falar e se torna amiga e confidente da personagem de Marilyn. O problema é que ele se apaixona de verdade pela cantora, mas como a intenção da moça é dar o golpe do baú, Curtis acaba incorporando um terceiro personagem, um suposto herdeiro de uma grande petrolífera, a um tempo ingênuo e sedutor, por quem Marilyn se derrete toda. Com esse filme, Curtis teve assim a chance de quebrar um pouco a imagem de galã e incorporar três personagens diferentes em um só, gravando assim seu nome na eternidade.

 

 

Mas como se não bastasse o filme de Wilder para imortalizá-lo, Tony logo depois fez também Spartacus, de Stanley Kubrick, onde fazia um papel menor, o escravo que se juntava ao rebelde Spartacus (Kirk Douglas), mas antes disso teve direito a uma cena antológica ao lado de Laurence Olivier, cortada da edição que foi exibida nos cinemas mas restaurada na versão disponível atualmente em dvd, onde o lendário ator inglês, no papel de senador romano, tenta seduzir seu jovem escravo com um diálogo cheio de sutilezas que fala aparentemente de ostras e caramujos, mas na verdade é um jogo de sedução. Veja a cena:

 

 

Tony Curtis teve uma longa e prolífica carreira, foi casado com a também lendária Janet Leigh, estrela de Psicose de Alfred Hitchcock, com quem teve a filha Jamie Lee Curtis, e brilhou também como artista plástico. Mas é graças ao trabalho com esses mestres que são Billy Wilder e Stanley Kubrick, e por ter contracenado com mitos como Marilyn Monroe e com feras como Laurence Olivier e Jack Lemmon, que seu nome tem lugar de honra entre as estrelas de cinema.

 

Descanse em paz, Tony Curtis.

 

 

Escrito por will robinson às 04h34
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